Mês: julho 2024

Deficiência, previdência e risco social no BrasilDeficiência, previdência e risco social no Brasil

Um fantasma ronda os dependentes das políticas assistenciais brasileiras: o recadastramento. Não é novidade a aparição nem muito menos inovação do atual governo. No anterior, diversas vezes os titulares das pastas econômica e fazendária cogitaram medidas semelhantes, tendo no alvo os benefícios de aposentadoria e o próprio Benefício de Prestação Continuada (BPC) .

Interessa saber que se trata de um benefício de valor muito baixo e destinado a atender famílias com um renda per capita de até R$ 353,00. Ainda assim, de acordo com declarações de autoridades federais como o ministro Rui Costa, da Casa Civil, e Fernando Haddad, da Economia, seu somatório estaria impactando o orçamento federal numa esfera bilionária, contribuindo para gastos previdenciários extremos que estariam forçando ainda mais o déficit previsto para o ano de 2024.

Tendo sido cogitadas medidas legislativas unilaterais, como a edição de uma MP disciplinando os cortes e medidas administrativas, e decretos, a posição do governo acaba afligindo pessoas em situação de vulnerabilidade econômica que dependem do BPC para dar conta, como possível, dos altos custos de vida que incidem no Brasil sobre recursos privados de atenção à deficiência. A ideia do governo é mais impessoal: o estimado é que, com as medidas, poderão ser poupados até 26 bilhões de reais destinados às pessoas com deficiência que vivem na pobreza, fora do mercado de trabalho e idosos que nunca contribuíram com o INSS.

Órgão que provavelmente assumirá a tarefa do “pente-fino”, o INSS tem contribuído no diagnóstico do “rombo”. Para o Instituto, a judicialização de medidas concedendo o BPS, aliados ao aumento progressivo dos casos de autismo beneficiados e possíveis fraudes seriam as causas do incremento dos gastos sociais. Não se cogita, por exemplo, que a própria situação econômica do país esteja empurrando progressivamente pessoas para além da linha da pobreza. Certo ou não, é o modo que o governo encontrou de enfrentar a situação que, por natureza técnica e jurídica, corre o risco de agravar a vida dos beneficiários, uma vez que mesmo o teto de recebimento é muito inferior ao necessário provimento das condições de existência de quem quer que seja.

Desnecessária uma formação em Economia para se perceber que a sustentabilidade econômica das famílias de baixa renda está sempre por um fio. Ser pego no pente-fino por uma diferença mínima é, portanto, de uma indignidade contábil. Quem não paga as contas com uma renda per capita de R$ 353,00 não pagará com outra de R$354,00. A injustiça não se aplaca com isso, apenas se aprofunda. O propalado modelo social da deficiência, se serve para a confabulação teórica de classes abastadas, sacrifica sem clemência as pessoas mais pobres que não encontram saída a não ser desertar de atendimentos, de educação, de tudo. Essa espécie de solução técnico orçamentária que nulifica as individualidades tem por único objetivo desonerar o Estado para investimentos politicamente mais rentáveis. O que se destinaria numa avaliação biopsicossocial  a pessoas que por razões econômicas não podem mais se sustentar nem com o auxílio? Pois é para isso que serve a assistência social no modelo econômico vigente (não no “modelo social”), para ajudar a custear um sistema quase de todo privado. Sem nem isso, para quem disso precisa, restaria exatamente o quê?

Também se deve lembrar que, ao ser apontada a judicialização das concessões do BPC, o que se revela como background é que sua concessão pericial não tem sido facilitada. Isso impacta diretamente o trabalho da Defensoria Pública, órgão jurídico que visa proteger as camadas sociais menos favorecidas. Além disso, a necessidade expressa uma condição de vulnerabilidade social muito grande e, para imagem política do país, isso também não é nem um pouco positivo, ou seja, o pente-fino é também uma espécie de mal que vem para o bem — resta saber o bem de quem.

O governo, por sua parte, parece disposto a enfrentar os dissabores e o desgaste da medida. Da necessidade de cortes nos gastos públicos dificilmente alguém discordaria, mas no momento é o que está na linha de tiro. O que será decidido e realizado é outra situação. E o desgaste político, quando atinge a pobreza, parece sempre pesar pouco quando comparado a outras medidas que colaborariam com a melhoria da situação econômica. É uma decisão que será avaliada e pesada no futuro eleitoral por quem conta com o benefício. Que é uma tradição, nem se comente. Cortes e pentes-finos no andar de baixo no Brasil já são história.

Cancelando WallaceCancelando Wallace

Revista Parêntese, ed. 232

No mundo da história da ciência, nunca se apaziguaram completamente os ânimos em torno da prevalência de Alfred Russel Wallace ou Charles Darwin na elaboração da teoria da seleção natural. Até onde se sabe, felizmente não houve uma disputa por este legado, já que os seus trabalhos foram apresentados em um único paper em junho de 1858. Todavia existe, sim, e muito, a reivindicação posterior de que luzes em excesso tenham sido lançadas sobre Darwin (ou por ele próprio) em detrimento de Wallace, uma pessoa muito modesta e cujos interesses intelectuais paulatinamente o afastaram da “boa ciência”.

Mas isso teria começado ainda no séc. XIX e enquanto eles viveram. É o que se pode saber por meio das biografias de Darwin publicadas no Brasil, já que, de Wallace, não há em curso, parece, nem um projeto de tradução ou edição de qualquer biografia nem da sua prolífica obra para além de livros fora de catálogo. Não que elas faltem em idioma estrangeiro, inglês principalmente, mas aparentemente Wallace caiu fora do interesse editorial brasileiro, repetindo a escrita do seu obscurecimento em todo o mundo.

O problema deste obscurecimento parece começar por aí mesmo, talvez, na popularidade de um e de outro.

Do que se sabe, Darwin começou a trabalhar no que depois veio ser A Origem das espécies ainda quando viajava pelo mundo a bordo do Beagle, mas sua condição de saúde precária fazia com que evoluísse lentamente nas anotações e sua ambição inicial era de que o trabalho não resultasse apenas em um volume, mas um grande livro em muitos volumes. Eis que em 1858, conhecendo sua pesquisa e interesses, Wallace envia-lhe um resumo das suas observações altamente coincidentes com o que ele vinha desenvolvendo. Motivado por amigos cientistas que sabiam do seu envolvimento anterior, um trabalho conjunto de ambos é então apresentado na Sociedade Linneana, no mesmo dia em que Darwin sepultava numa capela perto de casa o seu décimo filho, o bebê Charles Waring. Um ano mais tarde, A Origem das espécies é publicada resumidamente, num volume só, e é um estrepitoso sucesso editorial, com a primeira tiragem esgotando-se em poucos dias.

É a publicação e o sucesso comercial do livro, muito mais do que o empenho de um quase heremita, portanto, o que determina a popularidade das ideias de Darwin. Neste meio tempo, Wallace envolveu-se em novas viagens e em outros interesses. Mais tarde, estes interesses divergentes à ciência contribuíram para a sua obscuridade. Também havia que Wallace, de origem social bem mais modesta que Darwin, passou a viver com muitas dificuldades e envolveu-se nos movimentos políticos socialistas. No entanto tudo indica que foram mesmo os seus interesses anti-científicos e propostas que ele fez neste sentido que o “cancelaram” naquele momento, pois tornou-se um elemento constrangedor nos círculos científicos, ainda mais que ele não se furtava a propor os debates espiritualistas com quer que fosse. Thomas Huxley (avô do escritor Aldous Huxley, conhecido como o “buldogue” de Darwin) parece ter sido quem mais empenhou-se nisto, inclusive colocando Darwin na última fileira das homenagens ao naturalista em seu cortejo fúnebre, em 1882. Mais ao final da vida, Wallace recebeu, no entanto, as maiores glórias científicas inglesas e foi lhe reestabelecida a reputação científica. Além das premiações científicas da Sociedade Linneana e da Royal Society, em 1908 recebeu a Ordem do Mérito, distinção máxima da Coroa Britânica.

A bibliografia de Wallace no Brasil é ridícula frente à sua imensa produção intelectual, porém entre os livros aqui publicados se encontram basicamente os destinados ao espiritualismo. Em 1870, mais de uma década após a publicação de A Origem das espécies, foi apenas quando ele publicou um apanhado do seu estudo evolucionista, com o livro Contributions to the Theory of Natural Selection. A esta altura, Darwin já era debatido, combatido e ridicularizado na imprensa londrina. Wallace tomou as dores de Charles e publicou outro dos seus livros traduzidos ao português, Darwinismo. Uma exposição da teoria da seleção natural com algumas de suas aplicações (EDUSP, 2010). O livro não é apenas uma defesa de Darwin, mas o seu reconhecimento de que o trabalho daquele precisava ser defendido como um patrimônio científico que também era devido a ele. E assim ele fez.

É bastante melancólica essa disputa tardia realizada por terceiros, vez que poderia ser muito mais explorada a relação de proximidade e mesmo as diferenças entre eles, não no sentido competitivo, mas visando enriquecer ainda mais o panorama da ciência evolutiva e também do conhecimento biográfico. Muitas vezes Darwin e Wallace apoiaram-se em questões muito importantes, inclusive de ordem financeira, pois foi Charles quem defendeu que a Royal Society destinasse a Wallace uma pensão em seu maior momento de dificuldade. Wallace quase prestou serviços a Darwin, de revisão e ilustração, mas as relações comerciais nunca se estabeleceram e Darwin parecia preferir o trabalho de desconhecidos a ter de reduzir a relação dos dois a termos empregatícios.

Em paralelo, mas não sempre coincidentemente, tanto Darwin quanto Wallace escreveram e publicaram muitos livros. Como um polímata, Wallace dedicou-se a muitos assuntos enquanto Darwin manteve seu foco nos estudos naturalistas. Porém num ponto específico eles voltaram a se encontrar: na adaptação da teoria evolucionista ao mundo dos seres humanos. Com Darwin, isso resultou em A descendência do homem, um livro até certo ponto constrangedor, pois apoiado numa visão spenceriana e imperialista e sem o brilhantismo original de A origem das espécies. Wallace não obteve melhor sucesso com Man’s place in the Universe, de 1904, no qual aliou a perspectiva evolucionista a uma espécie de teologia espírita metafísica reputada na época como imprestável.

Para além das diferenças e dissidências, Darwin e Wallace mantiveram intensa correspondência e muitas vezes Charles mudou de opinião em razão dos argumentos que Wallace lhe apresentou por escrito ou nas poucas visitas que ele fez a Down House. Na América do Sul e especificamente no Brasil ambos estiveram em momentos distintos. Darwin esteve mais ao sul, nos países platinos e no Chile, enquanto Wallace visitou o Rio Negro e a Amazônia. Em 2013, Wallace ainda não havia reunido admiradores suficientes para que uma campanha visando uma estátua em bronze obtivesse sucesso. O crowdfunding finalizou com 50% da meta e o monumento foi erigido com doações especiais. Está no Museu de História Natural, em Londres. No bicentenário de seu nascimento, em 2023, em todo o mundo promoveram-se iniciativas de recuperação do seu legado pela comunidade científica de todo o mundo. A infidelidade para com a ciência foi finalmente perdoada e Wallace reconhecido como uma das figuras mais relevantes (e por que não libertárias?) da ciência moderna.