Mês: abril 2023

Yael Naim ao vivo em ParisYael Naim ao vivo em Paris

Yael Naim não é o que se poderia chamar de uma artista popularíssima. Nos países europeus, no entanto, tem sempre grande público e repercussão o seu trabalho autoral. No ano passado, ela realizou o seu primeiro trabalho ao vivo. Gravado em Paris, no interior da Eglise Saint-Eustache, o disco de 16 faixas registra boa parte do trabalho de seus quatro registros anteriores e conclui-se com New Soul, a canção pop-folk que encantou Steve Jobs e que ele escolheu para apresentar, em 2008, a versão slim do MacBook Air. Até hoje, é sua canção mais executada em todas as plataformas. A distância desta para as outras faixas está na casa das milhões de execuções. Na gravação ao vivo, ela desacelerou completamente o andamento da letra luminosa e positiva, transformando a canção em uma balada mais antenada ao seus novos e menos difundidos trabalhos.

Até onde sei, Yael andou pelo Brasil pela última vez em 2012, e minha intuição me diz que tão cedo não andará novamente. É uma pena. Eu facilmente venderia um dos meus dentes de ouro para assisti-la.

Yael é um cantora e compositora nada menos que magistral e que não tem receio de explorar seus sentimentos mais densos para criar e interpretar. Ela também tem muitas interpretações gravadas de “terceiros”. Lembro dela cantando James Blake, Radiohead, Mooses Summey e, talvez, a sua segunda gravação mais executada até agora: Toxic, de Britney Spears.

Seu terceiro disco solo, Older, tem duas versões. A original, de 2015, e uma versão revisitada com muitos remixes e participações especiais como as da cantora inglesa Flo Morrissey (na faixa título Older) e na operística Coward que aparece em duas versões, uma acompanhada pelo pianista Brad Mehldau e outra pela Metropole Orkest, um híbrido de orquestra sinfônica, big band e jazz contemporâneo.

O seu segundo disco, She was a boy, não lhe trouxe muitos sucessos, mas é um trabalho de muita unidade em que ela mescla as influências da música israelense e um pop folk delicado, no qual às vezes aparece tocando violão e noutras piano. “Proficiente” nos dois instrumentos, Yael costuma aliar simplicidade instrumental e harmônica a um largo alcance vocal. Em seu primeiro disco, ela está ainda mais “enraizada”, quer dizer, compõe e canta muitas canções em hebraico e em francês. É dele a gravação original de New Soul.

Em 2019, gravou a trilha sonora de Mon Bebé, filme francês que, ao que me consta, nunca chegou ao Brasil nem nos cinemas nem via streaming.

Seu mais recente disco, Nightsongs, é bastante sombrio se comparado aos primeiros. Há um flerte com o gótico em muitas faixas e nos clipes que foram produzidos para o disco. Na internet francesa, vi quem dissesse que era um disco de “cortar os pulsos”. Exagero provável de um público cuja fidelidade às vezes se torna obsessiva e que parece não ter recebido bem a variação de humor nas composições.

Obviamente, Yael amadureceu muito desde o sucesso de New Soul e sua lírica tornou-se mais complexa e, neste disco especialmente, mais triste. Algum problema nisso? Só se isso competisse num disco de má qualidade e, bem, basta que se o ponha para tocar para ver que o seu poder vocal está mantido, sua poética alargada até mesmo idiomaticamente e sua lírica ainda mais emocionada. Nigthsongs é um disco imenso e que não se pode ouvir aleatoriamente, daí que isso possa suscitar reações de fãs acostumados a singles de 3 minutos.

Apesar de uma carreira de 20 anos, Yael Naim conta ainda hoje com uma única resenha no Brasil, de 2009. Acho que com essa recepção não dá mesmo para contar com que um dia ela volte a aparecer por aqui.

Coisas outrasCoisas outras

Num limiar, numa pequena fresta entre os gêneros literários mais “nobres”, é onde foi se alojar a crônica. O seu aspecto simples, comum, prosaico, às vezes simplório mesmo, ao longo do tempo tornou o gênero o mais praticado pelos leitores. Sim, pelos leitores, pois a crônica é o gênero no qual o leitor mais toma parte ativa e do qual se pede cumplicidade e concessão desde a primeira letra.

Quero dizer com isso que faz muito sentido um poeta escrever uma obra para a posteridade, por exemplo, mas nem um sentido isso faz para o cronista. A poesia é gênero que mira a eternidade enquanto a crônica vislumbra quando muito o horizonte do momento. A brevidade do momento e, às vezes, a anotação de um pensamento qualquer. Sua durabilidade depende de um sentido de universalidade distinto de outros gêneros. Um que se estabelece, por contraditório que pareça, na fixação do efêmero.

Mas aqui, para encerrar de uma vez essas considerações iniciais, interessa mesmo dizer que as definições de crônica sabidamente nunca chegaram a um consenso e cada cronista tem lá suas especificações e instruções particulares, como se tratasse de fórmula alquímica. Ou um modo de agir.

Enquanto alguns se dedicam mais ao cotidiano, outros vão à berlinda com a ficção, outros ainda se dedicam ao humour ou sentimentalismo, enfim, as margens são muitas, mas o que talvez mais importe seja que a crônica é a escrita desarmada por excelência, e que não deseja comprovar coisa alguma, muito mais oferecer o olhar do escritor conforme ele é menos articulado e consequentemente mais espontâneo. Eis aqui uma definição universal? Quem dera, mas penso que são apenas as instruções de que falava antes a respeito do que o leitor poderá encontrar neste apanhado.

Possivelmente, as crônicas e textos reunidos neste volume tenham em comum a diferenciação dos demais gêneros do que uma fórmula própria. A ausência de fórmula e premeditação, aliás, é o que sempre me levou a escrever com a displicência necessária a quem deseja escrever para nada comprovar, pelo ímpeto de traduzir em palavras pensamentos e situações que poderiam muito bem passar sem qualquer registro. Ninguém notaria sua falta. Todavia, depois de escritas, tornam-se indispensáveis. Parte mesma das coisas quaisquer que sejam elas: as “coisas”.

O que eu noto mesmo é que nesse conjunto que segue há uma pobreza impressionante de metáforas. Também não há símiles. Dito isso, sabe-se então que a poesia não pode estar erguida sem esse sustentáculo retórico que a ergue no ar, com sua solenidade tamanha. Não. Nestes textos, não há solenidade a não ser aquela encontrada ao acaso nas ruas, onde se tropeçou nela e se a encontrou e abraçou como um pensamento comum, ordinário, reconhecível à distância, do caráter mais humano –  e por isso falível – do vivido e pensado ao  escrito.

Por essas razões (e outras que não me ocorrem agora), o que vem a seguir não tem uma linha temática, um estilo, uma abordagem ou uma proposta definida. De tudo o que tenho escrito, são as coisas menos projetadas. Não eram exatamente para dar em livro, deram ares nas redes sociais, às vezes algum veículo as publicou e muitas vezes foram pensamentos que sem muito esforço nasceram e vivificaram. Não são poemas, mas podem eventualmente trazer o poético. São quase contos, sensações do momento, impressões de alguma coisa. São as coisas outras que nunca almejaram o literário e só mesmo a crônica em sua liberdade e despojamento poderia abraçá-las nessa intenção desfeita em pouco, agora registrada em livro.

Mariana Machado diante do mundoMariana Machado diante do mundo

Artigo publicado no Caderno DOC do jornal Zero Hora, 24/03/2023.

Junto aos demais nas prateleiras de uma livraria, numa tela da internet ou na coleção particular de alguém, um livro é sempre muito semelhante aos outros livros. Como se pode distinguir um de outro? Não é pela gramatura ou qualidade da celulose, certamente não, mas logo se intui que o peso de um livro reside mais na obra e no que dela é inerente do que no objeto e sua exterioridade. É por isso que todos conseguem atestar uma descompensação tanto no valor de venda quanto no valor intrínseco de objetos de aspecto tão semelhante. Semelhança apenas aparente, diga-se de passagem. Nem todo o livro é obra e quem o disse não fui eu, mas Jacques Derrida na sua Gramatologia. De fato, a diferença se dá à leitura e logo que se a inicie desencadeia-se um complexo processo analítico-comparativo.

É essa a balança que cada qual regula com sua experiência, preferências e disposição para a surpresa. Quando acontece, é como o tilintar das moedas de uma slot machine: já não se pode mais largar aquele livro único e inimitável.

Não foi por sorte que caiu em minhas mãos o novo livro da poeta gaúcha Mariana Machado. Eu a leio desde as suas primeiras publicações e sei que, portanto, este é um livro de uma carreira que em 2022 obteve com Cães e Astromélias (Mondrongo, 2021) o terceiro lugar no Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional. Agora, Mariana traz pela mesma editora um volume generoso de 250 páginas de sua poesia, com a publicação de Entre Mandalas, Espadas e uma Escada Caracol. Com o livro, o universo poético de Mariana ao mesmo tempo se arroja e densifica. Certamente, não pesaria mal em nenhuma boa livraria ou na prateleira de boa poesia de uma biblioteca.

Abertas as portas do universo expandindo do livro de Mariana, logo se parte ao encontro de uma recriação em versos do épico Sidarta, de Herman Hesse. Os 47 cantos do poema dão conta da busca por esclarecimento que o buda empreendeu a sós em sua bem conhecida jornada. Aqui, logo se pode ver que também Mariana empreende uma jornada em que se confronta consigo mesma e com o mundo numa tensão poética rara de se ver. E o esclarecimento de Sidarta, o que “quisera dar-se apaixonadamente a tudo”, e que cumpriu o destino por ele mesmo forjado e “deixou tudo para trás e foi-se embora”, não é senão a aprendizagem dos que se desapegam, nesse processo de decantação pelo qual também se transformam os poetas em poetas.

Ao recuperar os ecos antepassados das mulheres do Rio Grande do Sul ou ao combater e desvendar a densidade do mundo presente, Mariana combina sua voz mais coloquial com os recursos de uma excelente leitora de poesia. Isso se confirma ao conhecerem-se as traduções que ela também registra no livro e vão de Goethe a Jacques Prévert, alargando as margens do seu próprio universo ao universo de outros tantos poetas.

No poema A Lavadeira, a poeta rende a sua escuta poética às mulheres:

Quebrando a geada, pé por pé, no mato,
alta a trouxa de roupas – feito Atlas –,
pulando arames, chega à beira d’água
pra mergulhar os dedos, vê-los mortos
e desfazer na fibra seus caroços.

Sim, há mais escuta e um olhar acurado para a vida que um discurso em seus poemas. É uma escuta de memória e da trama dos motivos sutis da vida feminina, suas restrições históricas, desejos e ambições. Mas a poesia se dá apesar disso e quando se encontra com o que há de sublime no mínimo, vê-se também que a poeta nunca prescinde de sua integridade e dedica aos versos, além de técnica vigorosa e têmpera mental, a amorosidade áspera e táctil como é própria da dicção do sul. Livre do embaraço dialetal, a poesia de Mariana rebrilha de sua própria luz.

Mas é poesia que também se deixa notar no mais íntimo processo de maternidade e no encontro de uma plenitude inesperada entre o trivial e o religioso. Com um senso crítico por vezes cáustico, encara a própria rotina e a literatura desse tempo com o mesmo desembaraço com que se depara com as questões metafísicas da fé e de Deus. Seja com a leveza sintética do hai kai ou valendo-se da tradição das formas fixas, ela expande seu domínio do ofício sem que se encontre sequer uma repetição de motivos. Além de uma raridade, uma amostra de que este é um universo irrefreável. Vivendo em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, para nossa sorte o seu universo agora se torna acessível na forma de um livro que também é obra. Talvez por essa combinação pese bastante também na sua estante de livros.