Mês: dezembro 2025

O CentroO Centro

Andei ontem no Centro. Sempre que posso, evito andar por lá. E falho sempre. Não sei que tipo de coisa maldita têm aquelas ruas e prédios acanhados, aquela gente sem viço, roupas surradas e comércio decadente que me botam uma tristeza profunda na alma. Parece que estão ali num mostruário de sobreviventes. Por lá eu não penso nunca em humanidade, em sociedade, essas abstrações. É cada qual uma pessoa só e ninguém, absolutamente ninguém, parece-se aos demais. A diversidade verdadeira é uma condição sobre a qual não se poderia abstrair, ela se esboroaria a menor palavra dita ao acaso. Palavra com erro crasso na pronúncia, palavra desviada das conjugações e sotaque indefinido. Não subentende-se nada nas pessoas que andam por ali. Consigo imaginar de que vida vêm, e o destino que terão ao final da sua linha de ônibus. Todas são um livro imenso, ainda por ser escrito. Passo na portaria de um prédio art noveau de uma demolição intacta, que o tempo roeu e desgastou, e o porteiro me examina como se eu fosse entrar ali. Teria algum negócio a saldar, uma joia a empenhar, uma dívida para cobrar ou quitar. Mas não era eu. Eu seguia andando e passei por um negócio de árabes, mulheres usando o hijab. E coreanos vendendo quinquilharias eletrônicas duvidosas. E sudaneses com tapetes estendidos, como seus ancestrais faziam do outro lado do oceano. Seguranças conversavam à frente de uma loja, contando piadas ou aventuras para a atenção dos outros. Quem por ali passasse não seria revistado. O Centro não exije revista, basta que não se destoe muito. Subo à minha consulta de última hora, de um médico que achei por acaso e atendia sorridente quando toda a cidade já fechou as portas, emigrou. O consultório ameno com a música de um saxofone antiquado, eu poderia ficar ali por vários dias. Mas ele pingou uma gota de colírio em meu olho e quando eu vinha de volta nem notei que era quase Natal. A decoração natalina no Centro é perene e seus melhores produtos amanhecem enguiçados. Há uma graça nisso e um tácito acordo de quem compra um presente desses a uma criança. É como se fosse dito “aproveite bem”. É sua única noite de festa. As demais serão iguais, idênticas às anteriores. Uma caravana a qual todos sabem ir. É o que há de ser feito: atravessar as ruas e o tempo de cada um, tempo intransferível, inescrutável sob as retinas. Numa esquina, encontro um táxi e sinto que faria bem se fugisse. A sensação é a de ter colocado o pé numa ratoeira. És o rato, pensas o quê? O que és? Um rato fugindo pelos bueiros a que avança a água subterrânea. O Centro é o disfarce perfeito de uma cidade, e também sua maior nudez. É bom estar aqui. É mau. As sombras dos prédios não permitem sair. A secretária do médico perdeu a casa na enchente e até hoje dorme no consultório, improvisada. Este homem amistoso deveria ser o prefeito, ela conta à substituta do plantão. Neste ano vai viajar ao interior, passar o réveillon com a família. A outra mulher sorri e nada diz. Essa é a verdadeira e única consciência: ouvir. Ouvir o silêncio da cidade, o que ele diz. E também o que ele não diz.

ParoleeParolee

Ó deixe essas lágrimas para amanhã..

Os dias de antes, a bebida de muitos,
outros amores vividos já além das mãos,
caminhos distantes também não tocam os pés.

Não vá inventar nada agora, chorar mesmo
de vai nada adiantar, ó deixe
as lágrimas para amanhã, enquanto sente
outra vez que o céu sorri para os demais.

Deixe também as moedas
no fundo do bolso, acaso ainda precise
ou a fome ou a sede retornem.

Não deve esquecer a sorte que teve o cão
ao fugir de casa, dos olhos turvos
do animal mais dócil do mundo esteja livre
e da forma que ele enganava a noite
com seu canto engasgado parecendo
que vinha de outra vida a nascer.

Ainda uma vez, olhe as tábuas do cais
e mais uma vez essa ponte que nunca cai
e o que ao levante do dia foi posto a dormir.

Os velhos e suas sobrancelhas espetadas —
a revolta que há nestes fios, ó entenda,
é mais feroz que a revelação da verdade.

Marilia, a quem você julga que amou, foi mais doce
com outros antes e você, seu último amor
e que a amparou nos braços ao desfalecer,
nem assim pensou que não aguentaria,
afinal, é para isso e não outra coisa
que há no seu peito o tal músculo, o valentão.

Nunca houve quem defendesse como você.
Esqueceu como defendeu a ofensa de um amigo
igual fosse a si mesmo?

E toque de novo aquela maldita canção
para que a noite resulte alegre e as estrelas
virem-se um momento só em nossa direção.

Estão bem guardadas as coisas acontecidas
para que nunca mais seja preciso revê-las.

E ao lado das vividas, as destruídas
estão apagadas como numa tevê enguiçada
que nunca mais ligou, um rádio velho
preso na mesma e eterna estação.

A essa hora, o olho arde tanto quanto um estômago.

A essa hora, o estômago vira quanto um oceano.

Mágoas ao fundo do mar borbulham
e um resto de vida quer viver, mas nada se pretende
e a portaria está por fechar e é devido
sair em silêncio e que nada indevido aconteça
ainda mais se for chamado “felicidade”.

Os cães fugitivos cumprem um destino melhor..

As portas estão bem fechadas, janelas, chão e paredes.

Os olhos de Marilia, lembre bem, eram mais fundos
que uma prisão e tampouco foi amor de verdade.

Que seja, é o que você pensou.

A parte dos livros? Despeje no pote dos micos..

Assim haverá alguém mais feliz
eliminadas da face do mundo essas tristezas,
essas infâmias, essas pobres parolas.

Mas antes derrame contra o muro a fel amarga
e volte para casa com a alma mais doce..

E sem, é óbvio, muito mais exigências.

Na vida lhe chamaram de tudo, santo, corvo, chacal,
ameba, quadrúpede, besta, pai, animal..

Também noivo da morte, santo, viuvinha —
do fundo do quintal nada disso de flor,
seu erva daninha..

Entre em acordo com o nome que sua mãe deu
(e quase ninguém além dela mesmo conheceu).

Vá até lá, e em paz, ao menos na noite de Natal —
é permitido a quem viveu toda a vida uma condicional.

Circular UrcaCircular Urca

(13.11.2020 – 28.11.2025)

Ela tinha um cabelão
e contei uma história
que não lembrava mais
de um pássaro que se moldou
em meio aos seus miolos moles
uma vez.

Num tempo cheio de horas vagas,
de quando não havia no que gastar
dinheiro que também não existia
(éramos iguais às sombras
encostadas sob a marquise
à espera do ônibus, na volta
circular Urca).

Ela tinha uns olhos verdes
em que nunca mergulhei —
nunca teria mergulhado.
Com minha sombra
eu protegia do solaço
a pele branca, por inteiro,
que mormaço..

E tinha um entusiasmo
que era gigante.
Cantava comigo qualquer coisa,
sem melodia, sem letra.
Nada que é bom
a gente na hora
pensa que presta

(nessas horas
há um silêncio sempre
que vai se acordando
ao mesmo tempo
abafando tudo –
hoje esse estrondo).

Se eu passar ao seu lado
outra vez,
não soe alarmes.
Deixa quieto,
fica na tua,
mas não se afaste..

Enquanto há tempo
a manhã perdura —
enquanto há tarde,
noite que baste.

Com ela o atraso
era um breve torpor.
Depois acordava e, quando se viu,
passou rápido demais.

Foi menos grave ao seu lado
e mais eu sonho por isso
dos sinos que batem
sem muito alarde.
Apenas nos seus olhos
eu fiquei sempre acordado.

Um pedidoUm pedido

Passos acima
o reino perfeito do amor
dorme um sono de séculos
de que não pode acordar.

Ao subir, desistira
de um regresso, e o retorno
impossível à cúpula
revela ainda mais dor.

Aqui, a indiferente natureza
prossegue frutificando
pasmos sempre novos
a novos olhos ferrugentos.

A relva na relva, o mar
no mar, tudo se recolhe
noite após noite
ante a noite replicada.

Cores copiosas do crepúsculo
vazam sua cor de clara de ovo.
A desafortunada visão
sequer percebe a si mesma.

*

Há uma mão pendurada
em silêncio que não alcança
nada a ninguém
em mais um gesto irrefletido.

Melhor que não visses
ao espelho quem foste,
quem viste, o que amaste
e o que dizes..

Mas uma centelha me pedes
desta rigorosa ambiguidade.
Eu digo: não sei.. Se digo,
é a intimação de um pedido..

Quando vais, me ausentas
do teu ser e estar
miraculoso. Como, sem tua
voz, me sustento?

Colocaste o pé sobre o meu.
Me acordaste. Do mais profundo
dos sonos, vieste. Se não sabes
quem és, não importa.. Vieste,
apenas. E então me causaste.

Em brancoEm branco

O que mais tem no mundo hoje é protagonismo. E eu acho estranho que essa ideia prospere tanto nos novos movimentos sociais porque é evidente que ela espelha uma noção competitiva nas relações sociais. Ao invés da busca por reformá-las ou transformá-las, vale aparecer mais, aparecer antes, capitalizar a imagem. A busca por protagonismo é uma nova forma de exploração do individuo pela sua imagem e o sofrimento correspondente a esse processo.

*

Caso a inteligência artificial assuma cada vez mais as funções comunicativas, é de esperar que o indivíduo se aliene completamente nesse self ponderado por algoritmos e disjunções aritméticas. Num mundo de redes de relações proveitosas, ou networks, a exclusão assume formas imponderáveis e inimaginadas no modo como as pessoas de mais de vinte anos de idade foram educadas. Todo o esquema de status pessoal torna-se um produto do sucesso da comercialização do seu ego. A ideia de carreira, de obra ou trajetória sucumbe a uma nova ordem de acumulação simbólica. Mais importante que talento é aferir valor a si mesmo, e vender-se a este preço, num esquema licitatório que seleciona as melhores ofertas de valor ao que o sistema simbólico (cultural) necessita explorar.

*

Às vezes, só às vezes, temos noção realista do tempo mal empregado de nossa energia mental e vital. No mais das vezes, por uma espécie parassimpática de proteção, essa percepção nos é vedada. Com ela, saberíamos que a maior parte dessa energia foi simplesmente dispersada. Como uma carga elétrica que se perde num circuito, simplesmente muitas vezes os grande aportes de energia não resultam em nada. Quando muito, choques periféricos sem maiores consequências. E a energia não se armazenou, não constituiu um fundo de aposentadoria, ela simplesmente evaporou. Sumiu. Acabou.

*

O maior agente de dispersão de energia são as pessoas. E não é porque elas sejam essencialmente dispersantes, mas porque são necessariamente egoístas. Muitas pessoas pensam que o egoísmo é uma deformação de caráter. Eu discordo. O egoísmo é uma forma elementar de diferenciação do eu ao notar que, para o seu bem estar, é preciso prestar mais atenção a si mesmo do que dispersar sua energia.

*

Não estou defendendo o egoísmo, claro que não, mas é fácil constatar que 99% das pessoas vivem dessa forma, priorizando a si mesmas. O egoísmo é a forma mais conservadora de comportamento. É um espécie de acumulação primitiva ahistórica, inarredável por qualquer processo revolucionário. O egoísmo só cessa com a morte do indivíduo.

*

O protagonismo é uma espécie de egoísmo da imagem, uma receita simbólica que se origina na comercialização do eu. Uma super projeção do eu, isto é, uma virtualização.

*

Dispersante, por outro lado, é o gregarismo, a vida em grupo, o cuidado. Quem dispensa cuidados dispersa sua energia, sua atenção. O benefício que ele tem é o de alienar a sua consciência, o de pensar menos em si mesmo e mais no contexto do que de si depende, mas isso só acontece quando ele o faz sem notá-lo.

*

O bem que se sabe bem e que se autodeclara, não é bem, é mera vaidade, disse Hannah Arendt.

*

A vida social é desarmônica porque o altruísmo é uma noção intelectualizada de ação política. Quem pratica o altruísmo muitas vezes está mais interessado no benefício moral da ação do que no bem estar coletivo.

*

As pessoas que dizem que preferem ajudar a alguém que pode olhar nos olhos ao invés de colaborar com a sociedade anônima computam recompensas que, se ajudassem a um fundo público organizado, traria mais resultados, mas elas então não afeririam benefícios da ação.

*

A situação mais vulnerável em que uma pessoa pode estar é a dependência do outro. No entanto é ao viver essa situação que se pode superar a condição do egoísmo. Por essa razão a negligência com as crianças e com os idosos é punível.

*

Deixar de fazer algo, abster-se, é mais poderoso que participar, pois se anula o emprego de energia e ela dessa forma não serve a nada nem ninguém.

*

Não podem coexistir a ideia inclusiva e o protagonismo. É um paradoxo.

*

É isso que agride a sensibilidade contemporânea e nos leva ao fascismo pós-moderno: a ideia de que a nossa melhor energia será de uma forma ou de outra canalizada num esquema competitivo de proveitos simbólicos e políticos. A mesma ideia da vingança, mas delegada.

*

Nada está mais distante do mundo hoje que a ética cristã ou budista. O séc. XX nos serviu para perceber definitivamente o fardo inútil da moral social. O séc. XXI nos vem servindo para dispersar a própria energia mental indefinidamente.

*

Um caderno vazio, no qual se projetasse uma forma de vida mais desinteressada, um mundo conscientemente distributivo e reparador, poderíamos ambicionar? Não descreio, mas antes precisaríamos ir até o final do livro que viemos escrevendo. Um livro com protagonistas demais. E um caderno cujo protagonista seria, de forma natural e especial, ninguém.

Não se aconselha a compaixãoNão se aconselha a compaixão

Para a Isabel

For every little lie you tell so you can hide
Will grow inside your chest
Your heart will need to rest
So come into my arms

November Ultra

Não se aconselha a compaixão. Isto é o que se deveria dizer em muitos lugares onde ela havia trabalhado. É que as pessoas primeiro olhavam seus braços e pensavam que ela seria um bom guindaste para os velhos que já não levantam mais pelas próprias pernas. Um guindaste humano e de bom coração que, ao tempo em que erguesse pelas axilas alguém sem esperança em sobreviver, sussurraria em seus ouvidos palavras cândidas, inocentes, como se extraídas de uma canção de ninar. Por isso eu digo sem piscar: compaixão ela não tinha. Na verdade, era outra coisa; algo que não entendi por completo, pois também não houve tempo o bastante.

Para quantos não tenham força para viver, deve haver tantos que os ajudem a suportar, a mãe lhe disse ainda uma criança, a única menina entre sete irmãos nascidos em escadinha, ela a mais velha, e que se tornaria responsável pelos demais se a mãe morresse (e ela morreu de droga e bebida, quer dizer, de uma morte quase planejada). Alguém precisa ser o guindaste, a mãe avisou e antes que entendesse outras coisas elementares de uma vida serviu-lhe a lição.

O que a distraiu nestes anos foram os gatos que a mãe havia deixado que se acomodassem em seu pátio. Ela gostava de ficar olhando os animais como se aquilo fosse uma selva particular, um mundo de natureza, ordenado pela natureza e onde, por consequência, apenas aconteciam as coisas que desejava a natureza. Mas um a um os gatos partiram ou morreram e coube a ela enterrá-los junto aos arbustos que foram tomando conta do lugar. Isso tudo uma ordem da natureza, exceto ela, que desde então adquiriu aos olhos dos outros o hábito dos anjos.

“Eu vou comprar comida, algo que você nos prepare para enfrentar o frio. Não demoro…”, o pai disse na última vez em que o viu. Mais tarde, atrás dele foram os três filhos mais velhos, numa tentativa de reencontro que ela nunca soube se malfadada ou bem sucedida. Às vezes, ela estava encostada na porta da enfermaria, fumando, e me parecia que imaginava ainda que os quatros se encontraram, é claro, e agora vivem da pesca numa cidade portuária e nem é preciso que retornem, mas, se um dia retornarem, ela terá arranjado algo do que comeriam todos, como deve ser numa família.

Nos olhos dos seus irmãos nunca houve gratidão e nem ela esperou por isso. “Vive-se”, é o que ela dizia quando os vizinhos indagavam se precisava de algo e ela recusava, dizendo que com o seu trabalho eles tinham o suficiente.

Eu sinto tristeza que nas cidades, todas elas, nunca tenha um monumento a criaturas assim. Imagino que ela recusaria como recusou um pedido de noivado de um sujeito que disse por ela estar apaixonado, mas ela não o entendeu, não entendeu do que se tratava. Menos mal que uma prima entendeu as tentativas dele, subsequentes as que lhe dedicara. E ela entendeu ainda mais porque, de fato, não havia nada disso de paixão. Sabe-se lá o que havia..

Hoje desde cedo me pareceu que seria um dia estranho. Avisaram que ela não viria almoçar conosco, no refeitório. Foi deslocada para outro andar, outro setor, eu imagino. Não quero saber. Para onde ela tiver ido estará um lugar melhor, isso é que é. Haverá risos de histórias angelicais, sem qualquer maldade ou frivolidade, canções cantadas sem pronúncia, em boca chiusa, e seus músculos trabalhando como a mãe ensinou-a a fazer. Haverá alguém sendo ajudado ou então não haverá realmente mais nada. Em dezembro costumam dar folga aos funcionários, é isso que deve ser. A maldita está de folga e eu aqui, sem quem me conte o desfecho de uma história qualquer, dessas que rolam pelos telefones e eu tenho preguiça de ler até ao final. Irá comer os caramelos todos sozinha, não guardará ao menos um para mim. E é assim mesmo que deve ser. Não se aconselha a compaixão.