
“Zika: do sertão nordestino à ameaça global”, de Debora Diniz (Civilização Brasileira, 2016, 192 páginas)
O mais recente livro da antropóloga e professora de bioética na Universidade de Brasília e na Fundação Oswaldo Cruz, a ativista Debora Diniz, Zika: do sertão nordestino à ameaça global, é um dos primeiros documentos acerca da epidemia do vírus zika e seus efeitos em solo brasileiro. Resultado de uma extensa e imersiva jornada e do seu contato direto com as pessoas e comunidades mais afetadas, no interior da Paraíba e em outros estados do nordeste, o livro aborda desde os momentos anteriores à descoberta da relação do vírus com os crescentes casos de microcefalia e outras doenças neurológicas até o impacto da notícia científica na comunidade global, passando pelos relatos de médicos e familiares e também pelo difícil enfrentamento às condições de atenção à saúde de mães e seus filhos na região.
Ao invés de ser tomado como um livro de clínica sobre uma doença, sua etiologia e consequências, o livro de Debora na realidade é bem mais um documento que nem por um instante sequer realiza concessões às responsabilidades políticas, mas, ao dialogar diretamente com as comunidades envolvidas, acaba por desvelar e esclarecer ainda mais a relação direta entre a situação de vulnerabilidade das comunidades do interior nordestino e as condições propícias para a expansão de uma doença cujo controle dependeria essencialmente de investimentos públicos em saneamento. Tanto isso é real que, paralelo ao livro, Debora também produziu um documentário que foi apresentado primeiramente na Dinamarca, em agosto, na maior conferência mundial sobre a saúde da mulher, a Women Delivery, depois no Brasil e que agora está disponível no YouTube. No filme, é possível assistir-se às muitas pessoas entrevistadas para o livro e conhecer-se um pouco mais uma realidade que muitas vezes acontece distante de quaisquer recursos de atenção primária à saúde.
Ainda que provavelmente não tenha sido sua intenção realizar um trabalho de denúncia acerca das condições de vida das pessoas afetadas ou suscetíveis à epidemia no sertão nordestino, é muito difícil mesmo para um leitor desinteressado no assunto deixar de notar que há um fator de sofrimento humano e social inerente ao que se passa. A percepção de um grande envolvimento comunitário e solidário entre as famílias, especialmente quando e onde a atenção do Estado mais falha, não deixa de ser uma comprovação deste sofrimento, exatamente por consistir em hercúleas tentativas de contraposição ao estado de coisas e o sucateamento dos equipamentos de públicos de saúde.
Em seu livro, todas as situações relatadas são reais, assim como as pessoas envolvidas. Todas têm uma origem, uma procedência e histórias que por vezes chegam a confundir-se com a própria história do sertão paraibano, potiguar, alagoano, baiano e pernambucano. Histórias de carências extremas e de uma desatenção secular que dificilmente permitiriam que se pudesse escapar ao raio de ação do principal vetor do vírus: o mosquito aedes aegypti. O fato de o vírus atingir e comprometer seriamente a saúde de bebês só vem a acrescentar um ingrediente ainda mais dramático a essa que foi a principal e mais grave ocorrência epidemiológica no Brasil em 2016 e que deve repetir-se no verão de 2017, dirigindo-se já aos estados do centro e sudeste, conforme já vem sendo notificado pelas autoridades sanitárias.
Porque inicialmente imaginava-se que a microcefalia seria a única decorrência da infecção pelo zika e as pesquisas em torno da ação do vírus eram incipientes, apenas aos poucos foi se percebendo que as implicações neurológicas envolviam e impunham também outras condições aos recém nascidos. Denominada daí em diante por “síndrome congênita do zika” e declarada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como situação de emergência em saúde pública de interesse internacional, ainda assim nos meses de inverno, com a trégua relativa na propagação do vetor, pouco de efetivo foi executado pelas autoridades. Além de uma inefetiva “guerra ao mosquito”, o que mais se viu durante o ano foi o aumento dos nascimentos e o incremento na circulação do vírus em outras regiões. Pesquisas sobre vacinas vêm sendo realizadas pelo Instituto Butantan (SP), mas as melhores perspectivas de testes poderão concretizar-se apenas para o final de 2017 ou 2018. Até lá, as recomendações de cuidados extras para gestantes ficam mantidas, pois ainda é inviável pensar-se em outro cenário.
Além de verificar as dificuldades próprias da população, Debora investigou também o trânsito da informação científica sobre o zika e dificuldades muito particulares da comunidade científica brasileira em assimilar pesquisas e achados de pesquisadores que se encontravam distantes dos principais centros de pesquisa e daqueles que partiam de médicos de “beira de leito”, conforme sua expressão. Segundo depoimentos presentes no livro, tais dificuldades teriam colaborado no atraso do desenvolvimento de pesquisas e de ações públicas, inclusive sobre diagnóstico e notificações. De outro modo, ao dar voz a médicos que mesmo sem condições ideais insistiram em averiguar a causa do incremento de casos de microcefalia, o livro ressalta que muito do que hoje se conhece se deve a esse esforço clínico às vezes tão pouco notável. O ponto alto do livro de Debora aparece justamente no esforço em documentar e relatar não apenas as imensas dificuldades que emergem do encontro de um vírus poderoso, uma ciência em estado de transição e um ambiente social desoladamente permeado de precariedades, mas todo o esforço adaptativo de comunidades extremamente carentes.
Ao contrário da vizinha Colômbia, onde o aborto é legal na perspectiva de proteger a saúde (inclusive a mental) da mãe, e onde a circulação do vírus ainda não foi tão intensa e os números de casos mantêm-se reduzidos, no Brasil a situação é bastante diferente. Para Debora, tendo-se em vista a impossibilidade de controle do vetor e da responsabilidade dos agentes públicos no favorecimento de sua propagação, seria preciso superar, portanto, a questão do mosquito e garantir no âmbito dos direitos reprodutivos o direito ao acompanhamento pré-natal e a escolha ou não pela manutenção da gestação.
Nesse sentido, a Anis – Instituto de Bioética, entidade de pesquisa dirigida por ela própria, propôs ação ao STF visando ampliar o direito de escolha das mulheres e em responsabilizar o governo diante de uma epidemia que não foi controlada e cujo combate ao vetor de transmissão tem se mostrado insuficiente. Trata-se de uma ação em aberto cuja decisão final deverá custar ainda muita polêmica, mesmo já contando com o aval da OMS e de alguns juristas, embora outros tantos sejam contrários à medida. O tema, permeado por tabus e interesses diversos, não vem contando com um debate nem sério nem célere no Brasil, possivelmente porque a decisão não passe nem perto da realidade da população atingida. Por isso mesmo, e por ser um documento indispensável a todos os interessados nos debates contemporâneos sobre saúde pública e direitos reprodutivos, o livro de Débora seria também, para muitos, mais que um objeto de interesse eventual, mas uma oportunidade ímpar para inteirarem-se do assunto com um pouco mais de distanciamento do âmbito das crenças pessoais e o mais próximo possível da realidade de seus legítimos interessados.
Desde que assumi a subsindicância do condomínio onde vivo tenho sido permanentemente aliciado para a corrupção. É impressionante. Depois da experiência, estou até quase perdoando os corruptos contumazes. É mesmo um feito resistir às vantagens ilícitas que são oferecidas a qualquer um, mesmo em se tratando de um reles subsíndico como eu.
Esses dias precisamos arrumar o portão do prédio, que dá para a garagem. Aproveitei a ocasião e pedi para verificaram um problema no meu portão interno, que o condomínio não tem nada a ver, em absoluto. Na hora de fazer o pagamento, a oferta com aquele sorriso diabólico do corruptor: “Deixa que eu ponho tudo na mesma nota…”, disse o nobre prestador de serviços.
Senti-me como Eva diante da maçã e a nota ali na minha frente, bastando uma rubrica para ficar tudo por isso mesmo, a própria serpente da danação. “Não precisa, imagina…”, respondi ao sujeito que, depois disso, acabou tendo de ficar sozinho no seu constrangimento.
Ontem, outro prestador de serviço. Dessa vez um eletricista que veio consertar a célula fotoelétrica. Orçamento acordado, aquela coisa e, na saída, pimba! De novo! Dessa vez a oferta era a de colocar também na nota de serviços o material que foi preciso comprar na ferragem, para o qual já tinha nota, não precisava de outra. Mais uma vez o convite malicioso, tipo assim me convidando para o estranho paraíso dos pequenos pilantras, junto a um cartão para o caso de “outras necessidades”. De novo apliquei a minha cara zen-budista até o sujeito perceber que não me interessava a sua proposta.
Na hora fiquei pensando: dois chamados, duas ocorrências. Vai ver todo mundo é corrupto mesmo e eu achando que esse era um papo furado aplicado apenas para o caso de amigos ou amados flagrados em malversações. Ou então, desgraçadamente, eu é que tenho cara de quem está sempre apto e a fim de levar um “purfa”… Pode ser, afinal quem sabe o que os outros veem na gente? De repente, tenho cara de malandro mesmo. Paciência, que é que eu vou fazer?
E também fiquei pensando que, se na ínfima burocracia condominial a ocorrência de aliciamentos é de 100%, que dirá nas altas esferas e altos empreendimentos pagos com dinheiro público. Deve ser 100% de corrupção fora o ágio.
Só lamento é que, no meu universo de observação, os envolvidos não sejam pilantras graúdos, desses que eu desejaria ver mofando na cadeia, mas pessoas humildes, provavelmente habituadas nisso por vantagens menores, muitas vezes insignificantes. Provavelmente, sim. Isso mesmo. Mas a questão de definir o que é significante é muito individual. Tem muitas coisas e gestos que eu acho mesmo insignificantes, pequenos crimes, e jamais me ocorreria puni-los ou bancar o moralista. Casos assim são recorrentes, lamentáveis e normalmente julgados com rigor absurdo, enquanto outros incrivelmente não são.
Seja como for, me enche de tristeza ver trabalhadores humildes recorrendo a expedientes desse tipo. Decerto não temem por isso, mas o fato é que se expõem de uma forma muito absurda, quase obscena. Sei que há nisso uma violência embutida que quase ninguém percebe, ainda mais nesses tempos de justiçagem generalizada, mas, paciência… A pessoa decide que vale a pena correr o risco e aí, no fim das contas, acho que não está nem aí para o que os outros pensam ou vão pensar. É um modus vivendi dos mais comuns.
Essa e outras intercorrências, com outras espécies de estupidez deliberada, têm me feito pensar que os síndicos são pessoas talhadas para os mais duros desafios da vida contemporânea. Ou é o assédio incansável de corruptores ou é o desleixo deliberado do seu vizinho de porta. Quer dizer que a pessoa assume a incumbência de ajudar a coletividade e é levado a provações morais incalculáveis, de quebra tendo de ser um exemplo de cortesia e civilidades e, obviamente, sendo o suspeito preferencial da corrupção endêmica que parece assolar a sindicância de um modo geral.
Bem dizia um amigo meu, com experiência no assunto, que se pode exigir tudo de um síndico, menos fé na humanidade. A frase é de letreiro de caminhão, mas tem 110% de verdade, já descontada a Lei do Gérson embutida.