Mês: julho 2022

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Não sei se consigo descrever a simpatia que me desperta/causa encontrar estas palavras na folha de rosto de um livro. Acho que tem algo de antiquado, para além do “marginal”, mas também de discrição. Coloque-se um livreto como esse que tenho em mãos ao lado de um calhamaço e parece que um faria imediatamente sombra no outro. Mas isso é totalmente ilusório ou, melhor, uma análise de invólucro ao invés da única que interessa à literatura: aquela que diz respeito ao conteúdo dos livros.

“Cipó” é o segundo livro de poesia que eu tenho do Vitor Simon. Já tinha antes o seu “Cata-vento imóvel”, também de poesia. Ambos são edições do autor, isto é, livros inteiramente produzidos e comercializados por ele próprio. Os seus livros de contos eu não tenho nem conheço.

É um livreto de pequenas dimensões, 15,5 x 10 cm, mas de uma poesia que a mim muito impactou. Gostei muito. Há um salto evolutivo visível entre um e outro dos seus livros e, nesse especificamente, um ganho de vitalidade muito significativo.

MÃE, p. 37

O pó vermelho impregnado
nas solas da alma.
A vogal estiraçada
no final das frases.
Cá estamos, de retorno,
e a criança agora és tu.
Circundando o leito,
tecemos para ti
uma colcha de retalhos
de nossa própria pele.

Quando se lê dois livros de um poeta, e se nesse meio tempo algo de significativo passou-se com ele, é muito difícil não se notar. Não é uma mudança que se dá na forma ou na técnica, mas na perspectiva. Uma inflexão na sensibilidade. Se o “Cata-vento imóvel” denunciava desde o título uma percepção muito auto centrada, com “Cipó” a poesia do Vitor parece ter ganho mobilidade em todos os sentidos. Seus poemas agora são menos especulativos e mais flexíveis. Debruçam-se no tempo histórico, alcançam-no e transferem-se com muito mais liberdade tanto em foco como em percepção.

Embora o nome “Cipó” também remeta a uma espécie de fixidez, seus poemas agora também são menos contemplativos do que no seu primeiro livro. Eles realmente falam do embaraço do poeta com a vida, não são especulações feitas à distância. Por isso, eu diria que é um livro mais sensível e afirmo isso tanto em relação ao seu livro anterior quanto também a uma certa frieza e distanciamento para mim muito presentes na poesia contemporânea de um modo geral. No caso de Vitor, ele parece ter vencido essa distância e os seus novos poemas são como frutos desse seu novo momento.

Não em todos, mas em muitos poetas que li e conheci, os mortos há muito e os que estão vivos agora e leio aqui, e apesar dos estilos muitas vezes diferentes, tenho uma sensação repetitiva de que são pessoas que desejariam por meio da escrita tocar a sensibilidade dos leitores. Alterá-la de alguma forma. O Vitor não me parece ser um poeta assim. Outros me passam a sensação de que desejam fazer como a imagem de Jesus e apontar o próprio coração, como uma espécie de auto devoção. Como se o sentimento do poeta pudesse providenciar significados aos sentimentos dos demais. Também dessa sensação o Vitor me livra, felizmente, e de doutrinações sentimentais.

Ainda que não visando necessariamente o imediato, escrever é sempre um esforço comunicativo. Por certo desembaraçamento da realidade imediata e pelo uso de metáforas mais ou menos adesivas, a poesia parece mesmo um discurso livre e por essa razão é sempre complexo apontar-se o valor disso e daquilo, especialmente porque a liberdade formal obtida no decorrer do séc. XX pressupõe inumeráveis e incomparáveis formas expressivas.

O máximo que como leitor de poesia me atrevo a dizer de um livro é “gostei”, ou seja, este livro parece ter me alcançado a sensibilidade e ganhado em mim um leitor, quer dizer, uma porção da minha atenção apta a concatenar-se ao escrito. Para os que acreditam que a poesia é essencialmente a linguagem do belo ou do espantoso, eu lamento, mas não concordo inteiramente. A poesia do Vitor, em “Cipó”, eu não sinto que queira me mostrar a beleza nem me assombrar, mas mostrar o poeta e a sua forma de perceber o mundo e a si mesmo.

Talvez eu tenha ou sinta um parentesco com a sua poesia, é bastante provável, mas seu livro é bom pelo seu próprio valor. Como disse, eu gostei e esse parece ser o limite do que posso dizer. Todavia não é o limite do que o livro pode dizer e dirá aos demais que o conhecerem.

Caminhos do livro no Rio Grande do SulCaminhos do livro no Rio Grande do Sul

Revista Parêntese, ed. 133

Há pelo menos vinte anos, o governo do Estado do Rio Grande do Sul declarava em forma de lei, entre outras coisas, o desejo de converter-se em centro editorial capaz de competir no mercado. Expressa desde a promulgação da Lei do Livro (Lei nº 11.670 de 19/09/2001), a ambição foi resultante da ação e empenho de muitos vetores: do próprio Poder Executivo, dos editores representados pelo Clube dos Editores e pela Câmara Riograndense do Livro e, pela parte das bibliotecas públicas, do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas e do Centro do Livro e Bibliotecas Escolares, também organizadas no âmbito do executivo por meio da Secretaria de Educação.

A publicação ocorreu ainda no governo de Olívio Dutra, com um texto que mais buscava planejar o setor do que discipliná-lo. Denominava-se como Política Estadual do Livro, mas apenas dois anos após sua publicação é que começou a ser regulamentada. A forma escolhida pelo governo estadual já sob o comando de Germano Rigotto foi a edição de um decreto (DEC 43.036 de 20/04/2004) que, por sua vez, estipulou que a política fosse organizada em planos anuais. 

Um rápido corte de cena e quase uma década mais tarde vai encontrar-se, no ano de 2013, a informação de que, no âmbito do Poder Executivo, já no governo Tarso Genro, iniciou-se um novo plano estadual. Debatido e organizado desde 2012, agora em consonância com o Plano Nacional do Livro, o PELLL (Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura) contou com a participação dos mesmos setores que haviam se organizado pela política de 2001, pela Lei do Livro, ao menos em tese ainda vigente. Nesse movimento, os planos anuais foram substituídos pelos planos setoriais da cultura instituídos pela lei do Sistema Estadual de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul (Lei 14.310 de 30/09/2013).

Entre idas e vindas legislativas e tempo despendido no qual muitas vezes os objetivos abstratos dos planejamentos setoriais são levados a efeito por iniciativas pessoais, quem efetivamente tem colocado o livro no mercado e nas mãos dos leitores vêm sendo mesmo as bibliotecas e os editores de livros, dado que cerca de dois terços dos municípios do interior não contam com livrarias. Dentre estas, um número significativo não conta com dotação orçamentária e é dependente de doações diretas dos autores ou de livros obtidos por meio do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas ou do Instituto Estadual do Livro (IEL).

As dificuldades orçamentárias são imensas. E o governo busca suprir também o mercado editorial de forma indireta, aplicando um tanto do previsto de fomento na política de 2001 por meio de linhas de crédito especiais, de longo prazo, por intermédio de seus bancos de fomento: Banrisul, Badesul e BRDE. A busca por tais recursos, no entanto, é pouco expressiva, e atualmente apenas a editora L&PM beneficia-se por meio do projeto Pró-Biblioteca

Para os editores, todavia, as dificuldades são ainda maiores. Quase permanentes se lembrarmos, por exemplo, do que na década de 30 do séc. XX José Bertaso já advertia ao filho Henrique, conforme narra Érico Veríssimo em Um certo Henrique Bertaso (1973), de que era preciso considerar “o problema de distribuição, da prestação de contas de remotas livrarias, a fatal devolução de livros consignados, quase sempre em mal estado de conservação”. Quando se percebe que a crise da indústria papeleira ainda afeta o ramo como antes da Segunda Guerra Mundial, quando Monteiro Lobato fazia um lobby quase solitário ao governo de Getúlio Vargas, é de espantar o ânimo de quem ainda se atreve no setor.

Pese-se mais ou menos positivamente o valor dos incentivos estatais, o negócio editorial tem uma gestão e sobrevivência extremamente exigentes, e atender aos requisitos e formalidades exigidas pelo sistema financeiro, ao mesmo tempo conservando-se as contas saudáveis, implica muitas vezes em manter-se o mais possível longe dele. É uma aposta pela autonomia que, se não seduz aos investidores por uma promessa de lucros, garante-se um tanto mais pela estabilidade. E caso se pense que são iniciativas concentradas na capital, onde a circulação dos bens culturais é maior, incorre-se em erro. No interior do Rio Grande do Sul o setor não apenas sobrevive como se reorganiza em face do novo momento cultural e tecnológico.

Editando desde o interior

Trabalhar sem um grande fluxo de caixa, mas de forma sustentável, é o desafio da maioria dos recentes negócios editoriais. Para Mônica Canto, da Ballejo Cultura & Comunicação, as políticas públicas para a leitura são deficitárias e as edições dependem de parcerias com os autores até o processo final de divulgação. Com a boa receptividade do lançamento recente de “Escaler: quando o Bom Fim era nosso, Senhor”, apenas agora a editora começa a buscar incentivos públicos para ampliar o catálogo de livros infanto-juvenis.

Para estar efetivamente no mercado, o negócio editorial exige ao menos a constituição de pequenas empresas ou empreendimentos individuais. Ao passo que a constituição de personalidade jurídica é cada vez mais facilitada, essa presença envolve mais do que colocar livros à venda. Implica também em ter onde colocá-los e encontrar um nicho de leitores dispostos a adquiri-los – isso contando-se de antemão com a concorrência inclemente das mídias digitais, como se pode verificar nas pesquisas do Instituto Pró-Livro que apontam o incremento de acesso às mídias digitais em detrimento da leitura de livros físicos. Mesmo assim, novas iniciativas editoriais não deixam de aparecer, mesmo no interior do estado, especialmente pelo espaço de comunicação aberta da internet.

Criada há cinco anos pelo escritor Daniel Gruber, a editora O Grifo é um exemplo de uso da convergência digital e independência. Apesar de já contar com livros expostos em livrarias de São Paulo, Porto Alegre e Novo Hamburgo, onde é sediada, a editora faz um uso intenso das mídias digitais e financia-se inteiramente com o envolvimento direto dos leitores em campanhas de financiamento. Daniel a caracteriza como uma editora independente e aponta a dificuldade da ausência de uma mídia literária que valorizasse os empreendimentos locais. Quanto ao governo e suas políticas, não demonstra maior interesse, apenas que “valorize o livro ao invés de persegui-lo”.

Sediada em Passo Fundo, região do planalto, a Physalis editora, por outro lado, diz ter boa relação com a imprensa local e, em função de um catálogo predominantemente infanto-juvenil, vale-se de iniciativas municipais voltadas à educação. De acordo com seu proprietário, o escritor Pablo Morenno, vem mantendo-se com recursos próprios obtidos pelas vendas de edições anteriores. A concorrência de grandes editoras e facilidade que podem oferecer na divulgação é o que, de acordo com Pablo, dificulta uma maior visibilidade da editora que, inclusive, vem recebendo prêmios importantes no município e no estado. Ele também aponta que uma política governamental de compras voltada às bibliotecas ajudaria muito a sua e outras editoras do estado.

Em Santa Maria, no centro do estado, a Rio das Letras é uma editora com pouco mais de uma década e um catálogo composto quase inteiramente por autores locais. Jorge Ubiratã da Silva Lopes, ou Byrata, como é mais bem conhecido na cidade, aponta que também nunca sua editora contou com recursos públicos e que deseja sobretudo ampliar sua presença no mundo digital para tornar-se mais atrativa para autores e leitores.

Não muito distante, em Santana do Livramento, na fronteira sudoeste, Thomaz Albornoz Neves há dois anos passou a editar o que chama de projeto conceitual, uma coleção com livros que partilham o mesmo desenho gráfico e que têm em comum pertencerem a autores do interior do Rio grande do Sul e do Uruguai. Presentes nas livrarias locais, os livros da TAN editorial são tiragens limitadas e produzidas numa iniciativa não lucrativa e aposta inteiramente na internet para vendas e divulgação. Thomaz considera a distribuição e as margens de consignação impostas pelas livrarias impraticáveis para pequenos negócios como o seu.

Re-re-planejando 

Em levantamento realizado em 2006 pelo Clube dos Editores, no Rio Grande do Sul existiriam em atividade 453 livrarias. Presentes em 118 dos 497 municípios do estado, a aritmética simples indica que 380 municípios gaúchos não contam com livrarias. Já as editoras no estado não passam de uma centena. O único número efetivamente de encher os olhos é o de bibliotecas públicas. De acordo com o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, apenas um município do estado não contaria com uma biblioteca pública municipal, num total de 535 instituições.

Mais recentemente, em 2020, em nota técnica realizada pelo Departamento de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do governo estadual, a cadeia produtiva do livro foi novamente reexaminada. No escopo da nota, entende-se por “cadeia editorial”, o longo processo de realização industrial do livro desde o autor até o leitor final ou, para os efeitos da nota, o consumidor. Entre um polo e outro, o conjunto de pessoas e ramos de atividade envolvidos desde a composição até a venda final dos livros. O documento propõe-se a diagnosticar o impacto tecnológico no setor, evolução, dificuldades e identificar tendências futuras.

Comparar-se a nota à legislação e planos já desenvolvidos para o setor é no mínimo embaraçoso. Não há qualquer referência aos impactos nem da Lei do Livro nem do decreto de sua regulamentação e tampouco do Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura, de 2013. Para os efeitos de análise de impacto, resta a conclusão de que o setor faz-se por conta própria. Para toda a problemática levantada pela nota, resta sempre a necessidade de um novo planejamento, novas necessidades e muitos verbos no infinitivo, tais como naqueles outros documentos: identificar, fortalecer, trabalhar, construir, etc.

O resultado exasperante da preocupação política com o setor editorial talvez peque justamente por um sentido de permanente desconexão com a situação presente. A ideia da nota para a sobrevivência das livrarias, por exemplo, é de que elas se convertam ou assumam funções quase idênticas as de bibliotecas, isto é, cumpram a função de aglutinação e espaço cultural. É uma ideia de certo modo eficiente, até porque desloca da própria biblioteca pública essa missão e, assim, justifica-se para estas um estoque permanente de baixo investimento.

Embora pareça preparar-se logo para uma nova rodada de planejamentos promovida pelos sucessivos governos, o setor subsiste mesmo é pelas estratégias editoriais que enfrentam tanto um cenário de burocratização tremenda como o avanço de uma logística superior, como a proposta e executada, por exemplo, pela multinacional Amazon, mas também por livrarias do centro do país, como a Martins Fontes, que vêm explorando o mercado com valores cada vez mais competitivos e logística de alta eficiência.

Converter o Estado do Rio Grande do Sul em centro editorial, com condições de competir no mercado, era o desejo da Lei de Livro, em 2001. Além disso, outras missões tão nobres quanto: criar novas bibliotecas, preservar o patrimônio cultural, promover o hábito da leitura e assim por diante. A dificuldade de materialização das leis e planos, no entanto, parece repetir a baixa adesão ao Art. 13 da lei, que prevê o depósito legal e do qual ainda se tem infelizmente pouca notícia. Do mesmo modo, é de se lamentar que a utopia da preservação da memória venha sendo adiada, assim como outras ambições do setor livreiro e da sociedade. Não será por falta de planos, leis e boas intenções. Disso, como se vê, o estado vai muito bem. Vinte anos depois, somam-se às dificuldades do setor os desafios da tecnologia que batem a porta. Talvez, para atingir-se outro patamar, seja necessário parar de repetir-se e dar mais chance ao novo do que ao mesmo.

EufratesEufrates

Nesses dias chuvosos de julho, para mim é impossível não lembrar da campanha.

Lá fora, os campos da família ficavam entre o arroio do Tigre e o Camaquã, vulgo Eufrates por ali.

Quando chovia muito, não dava vau. Até determinado volume, abafando-se o motor e passando muito vagarosamente pela ponte, fazíamos a travessia às vezes com a caminhonete quase sendo suspensa na água.

Não é uma experiência lá muito confortável..

Para decidir se era viável a travessia, era preciso ter bom olho para aquelas águas que haviam levado consigo muito gaúcho a tobiano… Nos seus melhores tempos de vaqueano, o pai tinha esse olho e nunca se colocou em risco. Sobreviveu às cheias, quero dizer. Diz ele que algumas vezes por um pouquito só..

A alternativa ao caminho das águas consistia no caminho de dentro, o “das porteiras”… O caminho das porteiras competia em atravessar o passo do Tigre por dentro dos campos dos vizinhos e as porteiras eram várias mesmo. Alongava a viagem em algumas horas e alguns repechos, mas se chegava à cidade.

Em situação extrema, de necessidade de estar na cidade, era a única forma. As porteiras eram livres à passagem, mas, sendo inviável por um atoleiro mais pesado, ninguém se importava que se removesse um ou dois moirões e deitasse o arame para cruzá-lo. Lembro-me bem de segurar com as mãos a guajuvira mais pesada que a força disponível nos meus braços de guri. Lembro-me também que, a despeito da trabalheira, molhaceira e embarramento, tinha tudo aquilo um gosto de aventura verdadeira. Divertido não era, mas a cumplicidade pagava o custo daquelas jornadas. Uma latinha de figada era a refeição de um dia muito maior que o normal dos dias…

A estrada que liga Olhos d’Água a Bagé ainda hoje é a mesma. Caminhozinho de terra batida que na ida levava a família como força de trabalho, às vezes um adolescente contrariado, mas que na volta às vezes tinha disso. Se é que completamente de lá se volta um dia.

9 de julho9 de julho

Se viva estivesse, Mercedes Sosa amanhã completaria 87 anos. Teria a mesma idade que completou há poucos dias a minha mãe. É estranho pensar que uma diferença de 10 dias apenas separe o nascimento de uma e outra.

Esses dias eu lia na rede social de uma pessoa que sigo, e que aprecio, que já não faz mais sentido na geopolítica global contemporânea aquele ideário de unidade latino-americana o qual Mercedes foi a principal apóstola. Dizia ele que os atuais “cambios” políticos na América do Sul dependiam agora de novos realinhamentos e que, portanto, aquela utopia guevariana/bolivariana mais ortodoxa e revolucionária deixara de fazer sentido.

É difícil discordar, até porque as relações comerciais do Brasil com os demais países hispanohablantes nunca foram uma Brastemp. Bolivianos que o digam. Também o Brasil parece nunca ter contornado completamente suas diferenças com os demais países do Prata, sempre preferiu ser um arremedo e entreposto do “ocidente” que encampar, por exemplo, a latinidade. Mesmo com seus novos pressupostos perspectivistas. Por mais que tudo isso tenha muito a dizer ao próprio Brasil e dele ao mundo, simplesmente isso não faz muito sucesso aqui . O tratamento dispensado aos direitos indígenas nas últimas décadas são nesse sentido exemplares.

Do ponto de vista musical, acho que, tirando Heitor Villa-Lobos, o índio-de-casaca, a cultura nacional é ainda muito colonial. Colonial ou neo-colonial. Quero dizer que é pouco dada ao elemento indígena. Pelo menos eu não conheço muitos cantores, por exemplo, identificados plenamente com essa cultura, mesmo agora quando a questão amazônica se impõe de maneira mais evidente. Talvez Marlui Miranda. Mas quem conhece Marlui Miranda? Mesmo que pareça nome de dupla como Silmara e Simaria, trata-se de uma pessoa só.. Outra pessoa.

Já Mercedes o mundo todo conhece. E foi cantando um mosaico de canções folclóricas, milongas, tango também, rock argentino (sim, ela gravou Charly Garcia, Fito Paez, Spinetta, etc.) e também canções indígenas comos os kaluyos e takiraris bolivianos e cuecas chilenas. A questão é que o cancioneiro argentino se comunicou muito pelas fronteiras e os ritmos folclóricos em sua maioria recombinam elementos indígenas e espanhóis. Definitivamente “La Negra” era uma argentina das que não veio de barco.

É uma coisa que até acontece no Brasil profundo (em muito menor escala), mas não é pelo qual se caracteriza o ponto alto da identidade nacional (o samba e nem esse movimento neo-sertanejo, todo ele forjado numa estética nashvilleana). Às vezes, caracteriza alguma raiz regional, como a mato-grossense. Aqui no RS, em que pese a aparência, a matriz folclórica é essencialmente europeia. O pouco que veio do Prata aportou aqui por obra e graça dos tradicionalistas, depois da década de 50. Lucio Yanel, o violonista argentino virtuose que adotou o RS, já disse que ensinou os gaúchos a tocar “guitarra”, porque até então o instrumento musical predominante era o acordeão e os ritmos em sua maioria alemães e poloneses. Essas milongas todas não eram praticadas aqui até meados dos anos 70.

Então o que eu penso a respeito dessa peculiaridade de cantar as músicas de vários países é de que se trata de uma característica própria do cancioneiro popular argentino. Não me parece que tenha sido um projeto dela, mas uma decorrência natural da sua carreira de cantora. Seu último trabalho, o álbum duplo Cantora e suas 35 faixas, quando grande parte dos artistas mal conseguem gravar as 12 faixas mínimas necessárias para a confecção de um CD, demonstram o colosso de sua expressão artística, sua capacidade de reunir em torno de si compositores de diferentes estilos musicais e, principalmente, sua generosidade cultural. É a mesma Mercedes que ainda nos anos 80 reconhecia que precisou vencer muitos preconceitos próprios para se permitir fugir ao purismo folclorista e cantar a nova geração de roqueiros portenhos. Numa entrevista, disse que era uma cantora de folclore, não popular, e que passou a cantar a canção de protesto porque concluiu que naquele momento era o que deveria fazer.

Também em sua trajetória praticamente não há altos e baixos, nem necessidade alguma de comprovar-se “nova”, “inédita”. Sua fidelidade ao seu país (coincidentemente nasceu no mesmo dia da independência argentina) era tão plena que isso a levou a consolidar uma carreira universal baseada nas músicas cantaroladas nos bairros e províncias e as levou a grande teatros do mundo sem vergonha alguma disso, e por isso mesmo reconhecida. Essa música desse vídeo recuperado há pouco pela TV Espanhola, para mim é a síntese da sua poética. Para mim, que escuto isso desde a tenra idade, foi muito difícil não ser influenciado por esse combinado de força e delicadeza.

Sob o signo do dragãoSob o signo do dragão

No ocluso escuro das asas gigantes
que se dobram sobre mim e me cobrem,
a sombra me tem toda. Sem palavras.
A sua cinza me encova em velho fogo.
A sua língua me prega no silêncio.

𝘌𝘯 𝘦𝘭 𝘤𝘭𝘰𝘴 𝘧𝘰𝘴𝘦 𝘥’𝘶𝘯𝘦𝘴 𝘢𝘭𝘦𝘴 𝘨𝘦𝘨𝘢𝘯𝘵𝘴
𝘲𝘶𝘦 𝘦𝘴 𝘱𝘭𝘦𝘨𝘶𝘦𝘯 𝘴𝘰𝘣𝘳𝘦 𝘮𝘦𝘪 𝘪 𝘦𝘮 𝘥𝘰𝘯𝘦𝘯 𝘤𝘰𝘣𝘳𝘪,
𝘭’ 𝘰𝘮𝘣𝘳𝘢 𝘦𝘮 𝘵𝘦́ 𝘵𝘰𝘥𝘢. 𝘕𝘰 𝘦𝘮 𝘷𝘢𝘭𝘦𝘯 𝘦𝘭𝘴 𝘮𝘰𝘵𝘴.
𝘓𝘢 𝘵𝘦𝘷𝘢 𝘤𝘦𝘯𝘥𝘳𝘢 𝘦𝘮 𝘤𝘰𝘭𝘨𝘢 𝘦𝘯 𝘷𝘦𝘭𝘭 𝘤𝘢𝘭𝘪𝘶.
𝘓𝘢 𝘵𝘦𝘷𝘢 𝘭𝘭𝘦𝘯𝘨𝘶𝘢 𝘦𝘮 𝘤𝘭𝘢𝘷𝘢 𝘦𝘯 𝘦𝘭 𝘴𝘪𝘭𝘦𝘯𝘤𝘪.

Sempre que vejo imagens de Maria-Mercè Marçal, a poeta catalã, fico pensando que ela tinha um olhar que me é muito familiar. Não sei a quem se parece, nunca pude reconhecer a pessoa. Mas há algo de mansidão nela que é tanto fascinante quanto discordante da sua poesia, simbolicamente muito enérgica. Há muito sangue e fogo e frio e amor na sua poesia. Eu não conheço muito, apenas do livro “Degelo”, de 2019, da Urutau (de onde copiei a tradução acima, de Meritxell Hernando Marsal e Beatriz Regina Guimarães Barbosa), e de algumas coisas lidas na internet.

Agora, há não muitos dias, recebi um comunicado que a ótima coleção “Caderno de Leituras“, da Chão de Feira, trazia num volume dois ensaios de sua autoria. Já vão 150 edições dos cadernos, todos de livre leitura, e sempre fico pensando porque mais projetos assim não brotam por aí. É um projeto com textos de riquíssima qualidade. Vale muito conhecer.

Mas os textos em questão, de Marçal, tratam do mesmo assunto do poema acima, do mítico dragão. No poema, por uma grande elipse que ela magistralmente executa para desenhar-se protegida na/pela figura.

Porém só agora com os ensaios percebo e fico sabendo da sua devoção mitológica. E agora melhor a compreendo. Ela, que muito militou e escreveu sobre o feminismo e a sexualidade lésbica, diz que o sangue do dragão “alimenta e incuba dentro de si, ao lado da fonte indomável da vida, ao rés da morte — como a origem da escrita literária”.

Depois disso, eu nem precisava ler mais nada, mas ela continua e diz que o dragão “é o poder terrível daquilo que em nós fica do que foi excluído. O escritor, a escritora, encara, frequentemente de forma enviesada e oblíqua, as palavras e, às vezes, consegue que o monstro fale, diga bocados da sua verdade obscura, forçando e ampliando assim os limites daquilo que pode ser dito. Porque sempre o terrível está ao lado do belo, como o seu limite e simultaneamente como a sua condição de existência.”

E faz uma leitura do mito de Jorge como a que encontrei na medievalista e mitóloga Victoria Cirlot, para quem matar o dragão é uma aniquilação da liberdade e seu simbolismo não residiria na proteção da donzela, senão que a nulificação da feminilidade.

Mas não é só pelo dragonismo que me encanta a sua poesia. Toda ela tem a mesma mansidão enérgica e essa combinação me faz olhar os seus retratos com ainda mais estranheza. Talvez não estranheza, mas uma familiaridade estranha. Acho que é isso.