Mês: abril 2022

Artes do esvaziamentoArtes do esvaziamento

Não sabia que Dan Brown, do “Código da Vinci”, fosse pianista e compositor. Parece que é. É de sua autoria uma certa “The Wild Simphony”, peça sinfônica muito bem elaborada, pelo menos na minha opinião. É inspirada na vida animal e com apelo infantil.

Não conheço muitos escritores bem sucedidos que também sejam compositores musicais. O outro que lembro é Anthony Burgess, de “Laranja Mecânica”. Não dá pra dizer que é coincidência, mas ambos têm uma visão muito semelhante da relação da música com a escrita narrativa.

Numa entrevista a Paris Review, Burguess disse que “aprende-se bastante (no planejamento de romances) com formas musicais.” Dan Brown, noutra oportunidade que “escrever e compor são atividades muito, muito parecidas”, e que teriam a mesma espinha dorsal.

É um raciocínio simples: artes de composição demandando organização e etc.

Interessante notar que, por outro lado, compor ou executar um instrumento não tem a mesma capacidade, ou seja, não ensina ninguém a escrever. Não quero contradizê-los simplesmente, porém essa me parece uma conversa meio de botequim. Claro que tem fundamento a analogia, mas não é uma necessidade. Desnecessário também contra argumentar apresentando-se autores completamente analfabetos musicais.

Prova de que eles estão errados? Não é isso. O que eu penso é que essa intercambialidade no que diz respeito a narrar empobrece poeticamente o gênero narrativo. Os livros de Dan Brown, por exemplo, me parecem padecer desse problema, são secos como roteiros. Os de Burguess eu não posso comentar, só conheço “Laranja Mecânica” e é um livro pancada mesmo, literalmente duro de doer. Parece que ele tem uma vasta obra inédita, não sei bem, realmente não conheço.

Mas o que me soa mal nessas declarações, afinal de contas, é que ambos buscam na música uma razão quase estruturalista de justificação, quando a música é por excelência a arte da intuição e sugestão.

Hoje passei a tarde escutando esse disco de Keith Jarrett, um programa de pouco mais de uma hora de duração com algumas sonatas e adagios. Eu realmente gosto muito de Jarrett e sua capacidade de improvisação é um dom espantoso que atendeu a poucos seres humanos (hoje Jarrett não toca mais, após ter sofrido pelo menos dois acidentes vasculares graves). Essa peça, de acordo com ele, também é uma improvisação. Ele diz que se guiou com toda a liberdade possível e por um desejo não de exibir uma obra, mas de meditar e louvar a beleza da arte musical.

“Na verdade, todas estas peças nascem de um desejo de elogiar e contemplar e não de um desejo de “fazer” ou “mostrar” ou “demonstrar” algo único. São, de certa forma, orações para que a beleza permaneça perceptível apesar das modas, intelecto, análise, progresso, tecnologia, distrações, “questões candentes” do dia, a falta de modismo de crença ou fé, programação de concertos e o não natural “cena” da “arte”, do mercado, dos estilos de vida, etc., etc., etc. Não estou tentando ser “inteligente” nessas peças (ou nessas notas), não estou tentando ser um compositor. Estou tentando revelar um estado que acho que está faltando no mundo de hoje (exceto, talvez, em particular): um certo estado de rendição: rendição a uma harmonia contínua no universo que existe conosco ou sem nós”, é o que diz na contracapa do disco e que encontrei na Wikipedia.

Não tenho dúvidas que Jarrett nunca foi um romancista, pelo menos nos moldes preconizados pelos dois primeiros. Mesmo assim, sua linguagem é intercambiável com a literatura, ao menos com a poesia, pois a coluna cervical da poesia é música. Não estou falando em métrica, mas em música (ritmo, harmonia, melodia).

A minha forma de ler e escrever poesia (não só poesia) é pela música. Uma vez, uma amiga compositora e cantora me disse exatamente isso: aqui tem música. Não música canção, de cantar, mas música interna. E outra amiga querida, excepcional leitora e editora, uma vez também me revelou quase o mesmo: disse ela que lê poesia de ouvido. Esse estado rarefeito da música, encantatório, também é o que me traz a poesia. Quando eu sinto que ela por sua vez consegue o mesmo, como imitar a música, é porque ali deu certo. Ali funcionou. É como fosse uma germinação e que, depois, adquire vida própria. Em verdadeira arte de crueldade, o poeta só fica mesmo com a falta. É o mesmo que me acontece com a música: um esvaziamento do espírito.

Em casa de respeito não se entra pela janelaEm casa de respeito não se entra pela janela

Nem que eu quisesse podia entrar na casa da minha avó pela janela. A bem da verdade, sempre faltaram-me pernas para isso e uma repreensão silenciosa da minha mãe fazia com que eu rapidamente entendesse que era bom que ali eu suspendesse as molecagens. Estávamos indo na casa da vó e era bom para a minha saúde que eu me comportasse. Tivesse modos, como ela dizia.

Ao invés disso, eu deveria percorrer passo a passo os corredores do prédio de poucos andares até chegar, quase ao fundo do corredor, à porta que separava o mundo da cidade daquele mundo privado onde viviam meus avós e sempre tinha alguém de passagem ou visita.

A casa da minha avó sempre foi uma casa de visitas e, a despeito da sala espaçosa, nós, seus familiares, preferíamos ficar no quarto do casal. Lá, eu tinha a impressão (ou certeza) de que era um lugar onde o frio jamais poderia entrar. Era como se a temperatura ideal fosse combinada previamente com alguma divindade meteorológica que mantinha a salvo do vento Minuano o ambiente que mais frequentávamos no apartamento de frente ensolarada onde eles viveram enquanto viveu o meu avô.

Depois de sua morte, a vó veio viver em Porto Alegre e o apartamento em que veio para morar com uma tia logo adquiriu aquela mesma propriedade térmica: nunca frio demais, nunca exageradamente quente. A verdade é que aquela condição partia dela mesma. Embora não fosse pessoa espalhafatosamente calorosa, a vó tinha uma energia e vitalidade realmente impressionantes. E essa vitalidade contagiava o ambiente.

De repente, do nada sinto uma saudade absurda de ser conduzido à casa da vó para visitar alguma tia que estivesse de passagem na cidade – o que significava também a oportunidade de reencontrar primos que moravam longe e via muito esporadicamente. Criança, no entanto, não me permitiam que fosse muito longe e desse modo eu ficava mesmo era “ao pé” da mãe, como um bezerro em cria, ouvindo a conversa dos adultos enquanto o solzinho cozinhava vagarosamente o ambiente ensolarado do quarto da vó sob o olhar econômico e silencioso do meu avô.

Às vezes, mandavam-me à padaria comprar alguma bolachinha (em algum outro lugar do mundo se diz “bolachinha”?) ou alguma coisa na mercearia da esquina. Naquelas tardes intermináveis em que o futebol da rua havia sido suspenso por liminar materna e, claro, sem celular nem wi-fi, tudo o que havia para fazer era ficar sabendo da vida social (às vezes particular) por comentários aleatórios que elas faziam enquanto tomavam o chimarrão com florzinha de macela e espocavam a crocância das bolachinhas que eu havia buscado. É ridículo falar em internet naquela época, mas assim quero dizer que estávamos sempre presentes no próprio corpo, algo que hoje é sempre duvidoso nas pessoas.

Quando a gente é levado pela mãe, entende que há uma hora que não há retorno possível para a vida normal e planejada. É como se a gente fosse guardado na bolsa dela e submetido à sua condução inclemente e suplícios tais como dar só uma passadinha “ali” e conversar um pouquinho só com não sei quem mais. É condição inescapável e indiscutível. Parece que a liberdade recém avistada na infância foi suspensa por uma autoridade intransponível e irrecorrível: autoridade de mãe.

Às vezes sinto uma saudade absurda (e contraditória) de quando a minha mãe pegava de minha mão e levava-me consigo para ir não sei aonde e depois passar o resto da tarde na vó. Íamos a pé, atravessando as ruas friorentas de Bagé, tão familiarmente estranhas agora.

Então é nostalgia que chama? Pode ser, mas eu penso então que essa nostalgia é das perdas de tempo mais interessantes que existem, porque ela permite justamente que se salve da passagem do tempo alguma coisa que não seja a escravidão momentânea, permanente, da atenção no que aparentemente vai se desfazendo sem parar e, principalmente, do que já parece irremediavelmente perdido.

Do que eu comento é outra coisa. É como um efeito vítreo que a luz solar deposita em tudo e que depois não se descola mais. Adere indefinidamente às coisas justamente por esse caráter indefinido e consolida-se, realmente, é na memória de cada um e de modo totalmente particular. Pode ser qualquer coisa e, na verdade, qualquer um pode evocar quando viu pela última vez essa película acomodando-se em lugares, cenas e imagens que, incrível, não são instagramáveis. Essa luminosidade está nas coisas, objetivamente, mas, subjetivamente, em quem as observa.

Nesses dias não é que eu quisesse melancolicamente estar onde seria impossível voltar a estar, mas como evitar me sentir eventualmente como se por um momento estivesse?

InventárioInventário

Publicar é fazer um leilão da mente, escreveu Emily Dickinson. Sabe-se lá em qual de suas hesitações lhe surgiu a ideia, mas eu acho que ela tinha razão quanto a isso. Duvido muito dos poetas que não vacilam diante à possibilidade de multiplicar a sua criação e submetê-la à leitura dos demais. É uma situação no mínimo estranha porque, apesar de que a poesia prescinda da publicação para ganhar forma, é por meio dela que a obra pode ser avaliada, medida, esquadrinhada, aquilatada, amada ou, horror dos horrores, detestada..

Quando a ideia de reunir e antologizar meus poemas surgiu numa conversa com o Thomaz a fim de integrar a coleção “Poesia” da sua nascente TAN Editorial, não imaginava que, afinal, eu estava prestes a colocar o que havia escrito a um leilão para mim mesmo. Havia que arrematar de um conjunto relativamente extenso o que de mais valioso me parecia ou, melhor, deixasse de lado o que julgava de menos valor. Não fosse a ideia uma antologia, seria uma sugestão das mais terríveis: cortar na carne..

Este exame dos três volumes que produzi de 2017 para cá, no entanto, me permitiu pesar com uma balança de precisão os exageros e descaminhos dos livros que havia feito de modo quase privado para resultar, finalmente, num volume como talvez devesse ter sido sempre. Um tanto grande, de fato, nas suas 414 páginas, mas do tamanho necessário para que não perdesse o seu “tutano” e, ao mesmo tempo, resultasse do desbaste de uma vida, a ver que compreende um período de 35 anos (1986 -2020) de atividade..

Brinco com o Thomaz que os seus livrões parecem obra póstuma e é verdade que juntei essa hesitação às anteriores, de voltar a mexer nesses poemas. Isso num ano em que eu desejava mesmo parar tudo e me dedicar a um novo trabalho. Com ardis mais de leitor que de editor, ele foi demovendo minhas ressalvas de um modo inacreditavelmente sábio: colocando-me a trabalhar..

E outra: se eu não soubesse que havia continuado a escrever, pensava que seria hora de parar. Uma injustiça terrível, já que parece que comecei ontem..

Felizmente, não se tratava disso. A verdade é que não tenho meios nem palavras para dizer da minha sorte em ter encontrado “este” editor. As mil vezes que revisamos tudo: ordem, margens e detalhes do volume já seriam impagáveis. Ao final, ficou claro que não se tratava de um trabalho de editor, mas de um amigo mesmo. E um amigo obcecado em qualidade. Só que ele tenha me proposto o livro (numa clássica inversão de papéis) já seria para mim razão de orgulho, mas conhecer de perto sua devoção à poesia apenas me fez esclarecer algumas intuições prévias. Antes de tudo um leitor respeitoso e atento e, ainda por cima, ao tempo em que editava e publicava a obra do seu próprio pai. Bah! Não sei o que mais se poderia pedir de um editor. Sorte a minha.

Em tempo: embora o livro ainda não se encontre à venda nas livrarias (na editora estará a partir de segunda-feira – https://taneditorial.com.br/), pode ser encomendado comigo, em privado. A partir da próxima semana, já tenho condições de remetê-lo aos interessados. Em breve digo aqui onde mais comprar o livro. Estamos vendo de fazer um lançamento “oficial”, porém não tenho porque trancá-lo aqui. É uma edição pequena e numerada. Vai com meu autógrafo e agradecimento sincero.

O próximo e o outroO próximo e o outro

Eu não sou muito religioso (também não já sou mais tão ateísta), pelo menos no sentido estrito do termo, mas me comove muito a ideia cristã de igualdade e proximidade. No Natal eu não me sinto muito cristão, mas a Semana Santa sempre mexe comigo, isso que nem nunca comunguei na vida. Nem a ideia da ressurreição ou de vida eterna, muito mais a da paixão.

Como quem se apega às palavras, eu acho mesmo muito bonita a ideia de amar ao próximo. E acho nem tanto pelo “amor”, muito mais pelo “próximo”. É uma maneira delicada e especial de tratar as pessoas, como os que estão e são próximos. Uma ideia sequencial, em certo sentido. Sermos “o próximo” e não “o outro”.

Se há uma coisa que eu implico na psicanálise lacaniana é certo jargão que foi se sofisticando ao ponto do total hermetismo. E o hermetismo é uma reserva discursiva, não se pode esquecer. Eu não curto o tal “outro”. Na minha opinião, é de um distanciamento egocentricamente gélido chamar todos os demais seres humanos de “outro”. Por milhares de anos, a ideia cristã foi chamá-lo de “próximo”, mas tal ideia de proximidade foi varrida pela modernidade. Em seu lugar, ficamos com a diferenciação, a hipertrofia da alteridade e uma série de conceitos em sua maior parte abstratos cuja significação depende de um intérprete, ou seja, não é um código comunicativo comum, partilhável.

Eu, que sempre achei incompreensível a santíssima trindade, acho igualmente inexpugnável a teoria do grande outro. Olho aquela fórmula gráfica, semiótica, e não me parece se relacionar aos seres humanos, mas ao contexto de sua própria formulação, uma espécie de auto-referência. Porém, quando os religiosos falam no “próximo”, trata-se sobretudo de reconhecer um destino comum, idêntico e geral.

“O outro desempenha sempre na vida de um indivíduo o papel de um modelo, de um objeto, de um associado ou de um adversário”, disse Freud. Acho isso uma ideação do humano muito estranha. Para o cristianismo, basta amar ao próximo como a si mesmo. É uma ideia moral ao mesmo tempo rudimentar e muito complexa. Uma exigência que o próprio Jesus encarnou como exemplo ao morrer pelo injusto.

Eu comparo as duas proposições e concluo que a mensagem freudiana cai muito bem no sentimento moderno, mas que também traz em si mesma o sentido de desagregação comunitária que leva à fragmentação e ao estupor emocional. “Amar ao próximo”, todavia, apesar da aparente banalidade, consiste num desafio de auto-proposição. Não é com “o outro” que deve ocorrer, mas consigo mesmo. Pode que seja falacioso em muitos casos, um discurso enganoso, mas é uma questão da subjetividade e, principalmente, de largo alcance e simples compreensão.

Jesus não deixou uma teoria, apenas algumas poucas palavras ocasionais e muito silêncio. Não é sua imagem positiva que nos ficou, mas esse vazio que nos pergunta há dois mil anos, o que fazemos silenciosamente e a sós do amor pelos demais?

Desculpem-me os amigos psicanalistas, mas o indivíduo lá, seja filho de Deus ou não, ele tocou a eternidade. Enquanto a ciência decai, as teorias fracassam e os homens matam-se uns aos outros real e simbolicamente, a sua escassa palavra e exemplo não cessam nunca. Mesmo sendo um ateu ou uma rocha granítica de racionalidade, não tem como não se comover com o pobre do nazareno..