Mês: novembro 2023

Silêncio GhibliSilêncio Ghibli

Às vezes, me acontece uma grande vontade de silêncio. Não é o silêncio da ausência dos decibéis, mas aquele dos pequenos ruídos. A possibilidade de calar os grandes rumores e concentrar-me nos pequenos resíduos. Como se fosse possível prestar atenção contínua no som que o vento causa ao passar pela superfície das folhas e das ramas, no zumbido de uma abelha indo e vindo, numa portinhola de uma casa abandonada batendo para ninguém. Um silêncio como o dos filmes do Studio Ghibli.

Estar no mundo de uma forma silenciosa é um desejo um pouco metafísico e por isso mesmo inacessível. É preciso estar no mundo para saber-se vivo. E estar no mundo significa ouvir incessantemente o que está sendo dito, ler o que está sendo escrito, devorar o que está sendo oferecido. É estar submetido à informação, aos anúncios das coisas e portar a angústia de não conseguir debulhar isso tudo numa forma razoável de consumo. É um empanturramento de vazios. Vazios rumorosos.

Ou você tem livros demais para ler ou tem todas as músicas do mundo à sua disposição ou está zapeando um catálogo labiríntico de uma referência que se dissolve noutra, de uma montanha de produtos que se materializam para você. Coisas que aparentemente existem e estão ali disponíveis, mas nada disso é o que você quer.

O seu desejo é o de poder ouvir a água como um peixe pode ouvi-la. Zunir como um inseto e ser ignorante do zunido. Ter aquelas imensas orelhas de um elefante e o seu mesmo direito de não compreender nada.

Mas não tente encontrar uma porta por onde acessar esse silêncio que não é o dos museus e suas coisas, tapetes, objetos e falsas aberturas. Esse silêncio de todas as músicas quando se as espreme muito. Talvez seja mais simples entrando numa indústria e aquele ruído tão absoluto que não se pode ouvir mais nada, e apenas suporta-se sem saber quando aquilo vai terminar, como uma espécie perfeita de infinito.

Por outro lado, há sons extremamente silenciosos. E há pessoas silenciosas que não ocupam mais do que o espaço que têm, embora se exija cada vez mais que todos estendam a sua existência e a prolonguem e signifiquem para além da própria vida. Logo já não será possível mais morrer neste mundo. Alguma coisa técnica tomará o seu lugar e continuará a sua vida, reproduzindo uma sucessão de hábitos, como se viver fosse apenas esse deslocamento da sua aparência e seus pensamentos repetitivos. Algo como os livros faziam e cada vez mais serão outras coisas e objetos.

A minha vontade, às vezes, era de acessar um silêncio elementar como o que eu sentia quando era criança ao carregar com minhas mãos infantis, numa vasilha, a água para encher os vasos de flores das sepulturas dos antepassados nos dias de Finados, quando acompanhava meu pai. O som da água na vasilha sacudindo era tão silencioso… Mas, se quisesse, eu podia quase tocá-lo e parar até ele com meus dedos. Essa possibilidade que agora me falta absolutamente, que a vida toma de todo o mundo e só mesmo a morte restitui, porque definitivamente não há outra forma possível de obtê-lo. Até mesmo escrever isso não é uma forma de rompê-lo?

CosmosCosmos

A pior coisa que aconteceu na minha vida escolar foi quando, em 1982, a rede Globo passou a apresentar aos domingos, após o Fantástico, a série Cosmos, projeto de divulgação científica de Carl Sagan e sua esposa Ann Druyian.

Eu não assistia Cosmos no horário noturno, assistia a reprise da semana anterior aos sábados pela madrugada. A série era reprisada ali pelas 6 horas da manhã e não havia nada que me impedisse, a não ser a falta de energia elétrica, de assisti-la enrolado numa coberta naquelas típicas manhãs frias de Bagé.

Eu nunca tive coragem de assistir ao remake de 2004, com a apresentação de Neil DeGrasse Tyson. Seria uma espécie de profanação da memória sobrepor as novas imagens de computação gráfica àquelas primeiras, que se pareciam ainda um pouco aos efeitos de Jornada na Estrelas e Perdidos no Espaço. E a trilha de Vangelis, insubstituível, e que depois foi responsável por que se impedisse sua veiculação e reprodução em função de copyrights.

Com Cosmos eu fiquei sabendo de coisas que a educação formal nunca me ensinou. Pode ser que a memória me traia, mas eu tenho quase absoluta certeza de nunca ter tido nada além de rudimentos das ciências exatas e humanas e mesmo assim ter progredido. Ao longo dos anos escolares, não lembro de ter tido uma explicação mínima sobre o trabalho de Charles Darwin, de Galileu Galilei, de Nicolau Copérnico, J. Kepler, sobre os gregos nada além de Pitágoras (sem nenhuma contextualização de quem foi o sujeito), nada de filósofos e de literatura apenas nomes e períodos sem que precisasse distinguir nada. Em história, um vai e vem de datas desconexas, sem causa nem efeito. Nem em religião aprendia-se nada, isso que a minha era uma escola católica. A ciência sempre dogmática, o oposto do que deve ser. Arte? Nada. E assim tudo.

Quando passei no vestibular, pensava em como alguém com a minha educação poderia se sair tão bem em história, literatura e língua estrangeira sem ter estudado quase nada disso, afinal, precisava me concentrar nos meus déficits, as exatas, ou melhor, os decorebas das exatas. Eu tenho tanto horror às exatas que me recuso a fazer cálculos com números maiores de 1 dígito sem usar uma calculadora. Faço questão de não guardar nada disso e nada do que seja conhecimento aleatório no meu cérebro.

Com Sagan eu entendi pela primeira vez a importância das bibliotecas e quando fui conhecer a única que havia na minha cidade natal, soube que a minha ignorância não era individual, mas coletiva. E que certamente algo estava sendo sabotado em nosso país por meio de uma educação horrível, que ainda predomina. Com Cosmos eu entendi que deveria fugir à mesquinharia e ao reducionismo como o diabo da cruz. E que é sempre melhor assumir a ignorância do que passar recibo de prepotência.

Pessoas que não conseguem relacionar história e ideias não poderiam estar lecionando, mas há aos montes. Apesar de falar da história do universo, Sagan estava sempre atento ao essencial: de que o conhecimento que não leva a humildade é o caminho mais estreito em direção à violência e opressão. Sagan inutilizou para mim quase toda a educação que conheci depois. É uma lástima. Mas eu o agradeço até hoje por isso.

A angústia da transparênciaA angústia da transparência

Revista Parêntese, ed. 200

Posso não concordar com o que você escreve, mas defenderei até a morte o seu direito de publicá-lo.

Da mesma forma que Voltaire parece nunca ter dito ou escrito o bordão acima, aí está uma deturpação que eu certamente morrerei sem nunca ver um escritor proferir. Não é que alguém ainda se iluda de que um dia as coisas no mundo literário possam ter sido mais amenas, mas de qualquer forma seria improvável que o espírito de intolerância e dissidência que governa o mundo contemporâneo não fosse contaminar o mundo literário, universo no qual cada vez mais a competição e a distinção prevalecem sobre a cooperação.

O fato é que ainda está por ser estudada a força subjetiva que parece agir sobre os escritores no sentido de que afirmem que suas crenças quanto à literatura sejam sempre inquestionáveis e universais. Por que seriam? Isso apenas seria possível caso a literatura partisse de pressupostos científicos e fosse outra coisa que não o produto das tensões sociais, culturais e afetivas manifestando-se na subjetividade e daí aos objetos literários.

Mas se a sociedade busca refletir cada vez mais o campo multifacetado da diversidade, no da literatura o que prospera é o da autoafirmação. Não demora nada para que os escritores sintam-se compelidos a dizer o que para eles é a poesia, qual a ficção mais louvável, quais suas influências, no que eles acreditam, com que corrente política se identificam e assim por diante. No mundo da transparência total, todas essas posições vêm antes da qualidade do texto literário e determinará se o autor (ou autora) estará apto a integrar este ou aquele ambiente cultural, nutrir este ou aquele nicho de leitores, vencer este ou aquele prêmio cobiçado, etc. E assim a angústia da influência, que rendeu um livro clássico a Harold Bloom, hoje precisaria ser desdobrada na angústia da transparência – uma espécie de evolução de mero nervosismo ao transtorno de ansiedade generalizado.

Também me parece certo que essa volúpia dirigida ao próprio ego não é exatamente um fenômeno contemporâneo. É suficiente examinar o tanto de metalinguagem e metapoesia publicada ao longo do séc. XX, no qual se fez presente desde o primeiro modernismo com Manuel Bandeira e Drummond até os estertores da poesia marginal, com Paulo Leminski. Às vezes, parece mesmo haver nos poetas certa compulsão em categorizar a respeito de como deveria ser a poesia, sendo que esse “dever” quase sempre é um valor autoinstituído, uma garantia precípua, uma espécie de salvo-conduto indispensável ao pertencimento literário e do qual o próprio poeta é via de regra o exemplo mais bem acabado.

Do afetuoso Manuel Bandeira e sua prescrição de que “o poema deve ser como a nódoa no brim” ao intransigente João Cabral de Melo Neto afirmando “o poema final ninguém escreverá”, um desfile de escritores e escritoras e seus vaticínios literários consolidou essa tradição que hoje apenas transbordou, aliás, como tudo.

Na literatura contemporânea, tem sido bastante simples a tarefa de identificar que o grande movimento cultural catalisador das mentalidades está outra vez relacionado às contestações políticas e dramas de identidade e que o modelo de recepção vem se determinando mais pelo caráter ideológico do texto do que pela sua elaboração e qualidade estética. Nessa perspectiva, a ascensão de uma literatura engajada e de empoderamento civil tornou-se aparentemente um movimento inevitável. Mas assim já foi muitas vezes antes de agora e tudo indica que no devir cultural os ciclos voltem a alterar-se, assim como tendências e estilos preferidos. Não há razão para maiores ansiedades.

Em artigo publicado há não muito na revista Criação & Crítica, da FFLCH da USP, a professora e pesquisadora Leyla Perrone-Moisés nos lembra de que no séc. XIX houve escritores, como Victor Hugo, Émile Zola e Charles Dickens, que se dedicaram a uma literatura de denúncia social e, portanto, não se poderia alegar surpresa diante da proliferação presente, mesmo quando ela vise atender os anseios e problemas de identidade deste ou daquele grupo social, ou busque servir ao seu empoderamento. No mesmo trabalho, ela também alerta do risco de que “um livro que atenda somente às demandas sociopolíticas de seu tempo não terá mais o que dizer aos leitores do futuro”. Evidentemente, os editores e livreiros não parecem tão preocupados com isso se a circulação é mantida, além de que, por mais comprometida ou engajada que seja, ainda assim são textos literários, ao contrário dos outros 90% dos livros em circulação no Brasil atual (a CBL informa em sua pesquisa de mercado que a participação da literatura adulta no mercado foi de 6,18% em 2022).

Bom ou ruim, grave ou não tão grave assim, fato é que ao longo do tempo a literatura tem sobrevivido ao anúncio de sua decadência e fim. Também me parece pouco provável que uma literatura em defesa das boas causas, como defendeu recentemente em entrevista para O Globo o escritor Bernardo Carvalho, venha a obliterar a literatura de qualidade. Se James Joyce, Virginia Woolf, Vladimir Nabokov, Jorge Luis Borges e tantos outros escritores incontestáveis deixaram de receber o Nobel em detrimento de Herman Hesse, sempre tipificado como um autor “fácil”, certo é que nem por isso perderam o seu público e ainda o estão conquistando muito tempo após a sua morte. É natural que o escritor se angustie ao ver que sua obra é preterida por outras que ele julga de menor qualidade, mas essa decisão infelizmente não lhe compete. Que fazer? É preciso maturidade e aceitar a realidade ou então insurgir-se com um movimento, um manifesto, coisas que o tempo acelerado de agora parece simplesmente não dar muita atenção. Toda a reclamação que se possa fazer, mesmo a mais justa, soará apenas como um lamento solitário.

No seu Tratado da tolerância, Voltaire dizia que cada pessoa só deve acreditar no que lhe dita a própria razão, desde que o equilíbrio social não seja por isso rompido. O que temos por agora é mais deturpação do iluminista, são todos acreditando demais em si mesmos. Na era da transparência e do júri permanente das redes sociais, talvez seja preciso aceitar que a impermanência da atenção dos leitores é a nova regra, ainda que ao custo da própria transparência.


São JuéversonSão Juéverson

Se houver justiça nesse mundo, no futuro, um dia de veneração será reservado nesse país brasileiro a São Juéverson.

Ele ainda santo não é, mas é questão de tempo para que se reconheça a beatitude dessa criatura de Deus.

Eu o conheço há pelo menos meia dúzia de anos, que é o tempo em que o vejo, no supermercado, do lado de dentro do balcão da fiambreria. Sempre a mesma placidez, o gesto imparcial, a correção platônica que o Juéverson oferece de bom grado aos clientes dos seus patrões que, não tenho dúvida disso, sequer suspeitam da sua existência.

Do Juéverson nunca ninguém ouviu um “Tá bom assim?”, diante a um deslize de microgramas nos fatiados. Ele corrige seus erros, coisa que a maioria das pessoas simplesmente não faz, quando intencionalmente não piora, sabe-se lá por que razão. E acerta as pilhas de muzzarela, presunto ou mortadela com a precisão de um robô e a delicadeza de um ourives.

Mesmo nunca tendo ganhado um elogio por isso, o Juéverson exibe aquela satisfação inatacável de quem está fazendo o certo pelo certo. Nem o nome esdrúxulo nunca foi capaz de lhe importunar o semblante sereno, mesmo quando clientes engraçadinhos erram por gosto a sua pronúncia, suprimindo o “u” intruso e o “v” trocado pelo “f”.

“É Juéverson mesmo! E eu adoro o nome que a minha mãe escolheu pra mim!”, ele diz sempre que indagado a respeito, sem nem suspeitar do assédio e da importunação embutidos ali ou fazendo parecer que não suspeita.

Aos “tira uma pouquinho”, “bota mais umas duas fatias”, “não, troca pelos daquela outra pilha ali”, “acho que eu não vou querer desse” e “eu não falei duzentas gramas?” de todo o santo dia, o Juéverson exibe sempre o seu sorriso impávido, de Gioconda. E continua o serviço sem nunca olhar para o tamanho da fila, mas plenamente atento à precisão das solicitações inacreditáves que lhe fazem.

No futuro ainda mais distante, se houver mesmo justiça no mundo, não se dirá mais “paciência de Jó”, mas “paciência de Juéverson”.

Mas e o milagre para ser santo? Devem estar fazendo contas os incréus…

Considere apenas que, mesmo em face do seu direito ao homicídio, ele jamais o cometeu. No meu, o critério é o bastante. Não por isso, há mais de 10 meses o Juéverson não erra um pedido. É mandar e pesar. Sempre na bucha. O que seria isso, inclementes, se não ajuda divina?

São Juéverson, residente desde o nascimento na Restinga, em Porto Alegre, filho da dona Mariana e do seu Zacarias. Funcionário na fiambreria do Zaffari há seis anos. Ficha limpa. Padroeiro do queijo laminado e da salsicha a granel.