E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Artigos,Crítica O futuro que pode estar acontecendo

O futuro que pode estar acontecendo

mais recente livro de Yuval Noah Harari tem tudo para mais dia menos dia ser daqueles livros com os quais todos irão fatalmente tropeçar em qualquer grande livraria, ou se irá bater os olhos nele nas gôndolas dos aeroportos, ou ainda saltará na sua tela, qualquer que seja ela, em recomendações algorítmicas do seu fornecedor preferido. Talvez se devesse imaginar que isso tudo se tratasse do efeito de uma grande campanha de marketing viral, a começar pelo sugestivo título do livro, e completada pelas seguidas aparições midiáticas do autor, mas o mais certo talvez fosse considerar que Yuval novamente acertou a mão (que o digam seus editores) ao escrever um livro que as pessoas desejam ler e mais ainda porque suas “lições” agora dizem respeito ao tempo presente e seus fantasmas e fantasias mais atuais.

Um leitor inocente indagaria com o livro em mãos (ou em mente): mas isso é bom ou mau? Depende, seria talvez o mais apropriado a responder-se. Dependendo, sim. Dependendo, não. Ou, sendo o mais tolerante o possível, ambas as situações e respostas ao mesmo tempo.

Num país de alegado e documentado desinteresse pela leitura, não deixa de ser interessante que um livro de divulgação científica esteja disputando a atenção dos leitores contra uma variadíssima gama de subliteratura e isto por certo pesa a seu favor. Por outro lado, por sua própria presença na posição de mais vendido, seria possível alegar-se que então se trata de mais um livro fácil, um caça-níqueis, e isto talvez pesasse contra o autor e seu novo título.

Seja como for, ambas são apreciações superficiais e, desde que são colocados à venda, o que se espera é que livros vendam bem, portanto pelo menos aparentemente não há nem um crime em vista. Além do mais, essa é uma discussão que não chega ao limiar da relevância do livro em si mesmo, que é o que deveria importar, mas apenas demonstra a intensa desconfiança que tem cercado a publicação de qualquer livro de interesse histórico.

Algumas décadas de jornalismo histórico sobressaindo-se aos livros de e sobre história (e assim sucessivamente em outros campos do conhecimento) haveria de resultar num custo destes: neste caso, uma paranoia exorbitante. Para leitores que se acostumaram a identificar por livros de história apenas aqueles fartamente ilustrados e redigidos numa linguagem coloquial extremada, para não dizer banal, é importante dizer que o livro de Harari pode e deverá ter ainda muitas leituras críticas, inclusive desta espécie taxativa. Ocorre que na maioria das vezes estas são críticas irrelevantes, enquanto que seu livro é apenas acessível e um tanto quanto repetitivo no que confere aos seus argumentos e temáticas, mas isto parece não desapontar suas legiões de leitores mundo afora.

A noção de “irrelevância”, aliás, é das mais abordadas ao longo das lições por ele propostas e rapidamente se pode perceber que se encontra no fundo de muitas de suas preocupações com o tempo presente e também com o porvir. Ao passo em que fundamenta sua crítica ao tripé narrativo preponderante no séc. XX (o fascismo, o comunismo e o liberalismo), segundo ele em vias de ruir em prol de um mundo cada vez dominado e orquestrado por algoritmos, Harari localiza na expansão da tecnologia a nova grande ruptura no modo de viver de toda a humanidade a causar não apenas uma grande onda de desemprego em massa, mas a irrelevância de pessoas e até mesmo de nações inteiras diante da emergência tecnológica e seus grandes artífices, configurados principalmente graças ao desenvolvimento das inteligências artificiais. Com um assunto assombroso como esse e trabalhando sempre numa margem de que isso tudo venha a ocorrer em algumas décadas, Harari já ganhou a atenção de meio mundo a despeito de seus exageros, sejam deliberados ou não.

Não se trata, segundo suas lições, da obsolescência de ocupações e modos de viver que estariam por acontecer, mas do que está acontecendo já e cujos sinais se fazem sentir por toda a parte. Para Harari, o tempo presente é carregado por nuvens a impedir sua percepção com a clareza que anos de estudo em Oxford, na Universidade Hebraica de Jerusalém e longos períodos dedicados à meditação Vipassana permitiram-lhe entender de forma diferenciada. Talvez por essa razão é que a clareza, ou sua busca, de fato, parece ser o tom preferencial da maioria de suas argumentações. Apesar de localizar em torno do ano de 2050 o derradeiro colapso da humanidade, Harari o faz através de uma narrativa envolvente que em muitas vezes parece-se mais a um conto de fadas sombrio no qual o grande mal espreita o mundo globalizado enquanto os incautos creem poder dormir sob uma segurança apenas aparente.

Seria de esperar que suas 21 lições, ainda que tenham sido coligidas e baseadas nas ideias de muitos artigos, entrevistas e apresentações, trouxessem, para além de um diagnóstico circular, saídas viáveis para pelo menos boa parte da humanidade. Ao contrário daqueles que costumam postular na ascensão tecnológica a redenção da humanidade e a solução racionalizante para as mazelas tanto do corpo físico quanto social do humano, Harari prefere fazer as vezes do condutor da inevitável catástrofe, valendo-se para tanto de uma combinação de ceticismo e humanismo.

É em determinada altura de sua lição para a educação do século 21 que ele, no entanto, registra aquele que parece ser o grande conselho no que se refere ao futuro em todo o livro: “O mais importante de tudo será a habilidade para lidar com mudanças, aprender coisas novas e preservar seu equilíbrio mental em situações que não lhe são familiares. Para poder acompanhar o mundo de 2050 você vai precisar não só inventar novas ideias e produtos – acima de tudo, vai precisar reinventar a você mesmo várias e várias vezes.” Bem, para um país como o Brasil, tido como a “nação Rivotril” e que amarga o incômodo ranking de líder mundial em transtorno de ansiedade e quinto lugar em casos de depressão, segundo dados da OMS, trata-se de um conselho desanimador, ou então (preferivelmente) pueril.

Não que seja próprio do ser humano acalentar esperanças inúteis, mas esta parece ser mais uma revivificação da ideia marxista da decomposição da solidez, retomada tantas e tantas vezes sob diferentes formas durante o séc. XX a ponto de ainda conseguir parecer inédita ou, mais que isso, converter-se em aconselhamento de sobrevivência no mundo pós-capitalista. Este parece ser o ônus com o qual têm de arcar todos aqueles que se aventuram a predizer o futuro: esbarrar na muralha de antigos conceitos e da imprecisão histórica. Também parece um pouco a sina de que Philippe Ariès comenta no seu O tempo da história, da dificuldade em conceber-se claramente o contemporâneo, já que ele traz consigo o sentimento natural de uma época.

De qualquer forma, a partir da publicação da sua ambiciosa trilogia histórica, Harari tornou-se um debatedor importante ao longo da última década, ainda que muitas vezes reverbere como apenas mais uma dissonância sutil do tempo presente e seus insights fugazes enquanto o tempo engole a todos indiscriminadamente. Suas preocupações, recheadas de exemplos obtidos da história comparada, têm lastro e muitos interessados num mundo com excessiva pressa para ler e comparar e ávido por lições de quem advoga para si um misto de qualidades ímpares, tais como o ceticismo, a isenção e o distanciamento misantrópico. Condenando rapidamente aquele que talvez ainda seja o bem mais caro à civilização, o livre-arbítrio, a um papel subalterno no ordenamento dos fatos políticos e subjetivos, Harari realiza em suas lições muitos alertas importantes, mas corre o grande risco de ele mesmo acabar por denegar a espécie humana sua capacidade de discernir por conta própria.

Em sua narrativa, em lugar da consciência há cada vez mais a onisciente inteligência artificial do Google e de outras gigantes do Vale do Silício. No lugar da espontaneidade das relações humanas, a aventura seletiva das redes sociais e a desintegração das comunidades. No lugar do conhecimento e da diversidade humana, apenas algoritmos e Big Data. No lugar das idiossincrasias regionais e culturais, uma teia cultural reordenando o mundo em estruturas anômicas e situadas para além da compreensão humana.

Num mundo e tempos tão complexos como os narrados em sua não tão breve história da humanidade, é chegado o tempo em que Harari se tornou imprescindível para entendê-los e isso só pode ser muito bom para ele mesmo e seus leitores. Ocorre que mesmo em posse de livros sem dúvida bem elaborados e escritos, ainda assim é impossível garantir que o seu maior temor, o da irrelevância, não possa igualmente vir a atingi-lo numa outra narratologia superveniente, e isso não seria exatamente uma boa notícia. Bem mais prudente seria afirmar que, por enquanto, seus livros colaboram em acautelar-se com o presente e com o futuro. Trata-se de mais uma ambiguidade, mas dada a gravidade e a irrevogabilidade dos processos históricos, não cabe ser inocente nem com livros, nem muito menos com alertas apavorantes sobre o futuro.

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Que o Rio Grande do Sul é lugar de pouca lenda ninguém desconhece. Tira-se o boitatá, o negrinho do pastoreio e Sepé, ou seja, Simões Lopes Neto, sobra praticamente nada. A pobreza imaginativa é acachapante e o excesso de realismo é a regra.

Visando suprir essa lacuna é que o Paulo Damin deve ter escrito “A lenda do corpo e da cabeça”. Será que foi? Eu acho que foi isso. Ele deve ter pensado: “vou bagunçar isso aqui de uma vez” e se lançou ao teclado.

Bom, não sei se foi mesmo assim ou se ele fez um uso prévio de psicoativos (ou graspa), mas que há no texto indícios de alteração de consciência, isso há. Estou por ser desmentido, mas fica o registro dessa dúvida.

Não é uma história normal, de gente normal, essa que agora virou livro e antes, por outra espécie de insanidade, os editores da Parêntese haviam publicado como um folhetim. Como é que eles se animaram? Eu fico pensando onde é que eles estavam com a cabeça.. Será que foram ameaçados de decapitação e se renderam? Fica o registro de mais essa dúvida.

A escrita mediante psicoativos (ou graspa), como é sabido, faz o autor ficar meio hiperconfiante. A adrenalina brota dos olhos e ele vai, naquele surto, se recompensando das loucuras que vão saindo da sua mente aos borbotões por outras loucuras ainda mais loucas. De minha parte, eu fico só imaginando as expressões faciais do autor ao escrever barbaridades que nem me animo a reproduzir aqui.

Todavia, se não foi do uso de drogas, decerto tudo aquilo ali provém de alguma técnica bretoniania. Um descompromisso total com a realidade no qual vai se contando a história de um corpo decapitado cuja condição, demente in extremis, não impediu que continuasse uma aventura com ares medievais. Isso o corpo. E a cabeça remanescente, imagem depositária da razão, ainda é mais lisérgica que o corpo e tem conversas animadas com os cursos d’água (isso mesmo), que também falam pelos cotovelos (?!).

Ao encontro de caçadores, bruxas, rios que conversam, sombras despegadas do corpo, cabeças navegantes e um bandoleiro com mais de uma centena de anos, o leitor logo percebe que está lendo um texto desinteressado (modo educado de dizer louco). Aqui o Paulo não traz uma fábula moralizante ou uma metáfora poética rebuscada, parece apenas ter-se deixado levar pelo prazer ancestral de contar uma história no tom mais coloquial, ainda que sem muito pé nem cabeça..

Mas exatamente por isso a gente se deixe contagiar fácil e rapidamente envereda pelas desventuras algo medievais e pelo insólito dessa lenda meio trash contada num modo de dizer absolutamente espontâneo. E isso, vamos combinar, é uma raridade entre os escritores destes dias tão, tão.. Me falta a palavra.. Ah, sim. Tão cabeçudos..

Pois o Paulo conseguiu me fazer rir como um livro não vinha podendo fazer há muito tempo. Eu, que estava por comer uma bergamota, até esqueci da fruta ali na mesa, no solzinho. Mas vou lá buscar que é a capaz da cabeça avulsa cruzar ali, roubar o fruto, e eu ainda por cima ter de testemunhar alguma coisa.

Não vi nada, não sei de nada, só que o livrinho é imperdível.

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A rigor, é desde a publicação de Nêmesis (Companhia das Letras, 2011) que os leitores brasileiros deixaram de contar com textos inéditos de Philip Roth por aqui. E como parece mesmo que o escritor falecido em 2018 foi definitivo em sua aposentadoria anunciada em 2012 e não deixou nenhuma novela ou romance para publicação póstuma, nos últimos tempos restou apenas aos seus leitores e devotos matar amargamente as saudades do autor por meio das notícias envolvendo o polêmico cancelamento da biografia de Blake Bailey, Philip Roth: The Biography (Skyhorse, 2021), a única entre as disponíveis que efetivamente contou com sua colaboração direta. Na prática, restaram efetivamente apenas as notícias: a tradução do livro em si continua suspensa pela Companhia das Letras, editora brasileira interessada na sua publicação antes da polêmica exposição envolvendo Bailey, acusado no começo de 2021 por diversos crimes sexuais.

Agora, a mesma Companhia das Letras oferece ao público brasileiro uma edição retrospectiva compilando dezenas de ensaios e entrevistas de Roth a respeito de literatura e de seu ofício de escritor. Trata-se de um volumoso livro (568 páginas) intitulado Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013). Talvez antecipando a retomada da aguardada tradução, garante-se dessa forma que a editora ao menos ocupará os interessados em Roth com uma boa dose de textos de sua autoria até então inéditos em português. Isso não terá ocorrido sem críticas duras ao gesto de suspensão anterior, pois, afinal, as questões apresentadas referiam-se ao biógrafo de Roth e não a ele mesmo. Enquanto prossegue o embaraço, não custa lembrar que Bailey acabou encontrando nova casa para publicar seu livro nos Estados Unidos e a Dom Quixote, de Portugal, promete lançar sua tradução ainda no primeiro semestre deste ano.

No que importa, o livro que agora chega às livrarias é oportunidade para aqueles mais interessados na literatura de Roth do que nos bastidores da sua intimidade completarem finalmente a sua coleção em língua portuguesa. Com a edição, obtém-se o bônus de enfim desviar a atenção de situações alheias ao escritor que, incompreensivelmente, no último ano tornaram-se mais importantes que a repercussão do seu trabalho autoral. Nesse aspecto, Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura não poderia ser mais lapidar.

Desde o ensaio de abertura em que Roth contempla o retrato de Kafka para daí imaginar um destino mais longevo para o escritor tcheco, passando por comentários a respeito de escritores seus contemporâneos, como Philp Guston e Saul Bellow e transcrições de suas conversas com Primo Levi, Isaac Bashevis Singer e Milan Kundera, entre outros, até o capítulo final de “explicações” no qual responde sobre o próprio trabalho, vê-se um Roth que se propunha a oferecer um legado crítico tão relevante quanto sua obra ficcional. E o melhor de tudo: numa ensaística na qual se reconhece imediatamente os traços de sua inteligência e humor. Veja-se, por exemplo, o ensaio como no qual ele enfrenta a Wikipedia a fim de corrigir uma entrada a respeito de A marca humana (Companhia das Letras, 2002) e a enciclopédia não assimila imediatamente a sua observação, exigindo-lhe uma “fonte confiável”. Roth não se dá por vencido e publica a devolutiva na The New Yorker. No livro, o ensaio aparece completo, sem as supressões da revista.

Parte considerável do livro compõe-se também por discursos em premiações recebidas, entrevistas e ensaios que já haviam sido publicados anteriormente em Shop Talk (Mariner Books, 2001), mas a compilação apresenta ainda textos inéditos em relação à edição norte-americana, de 2017. As entrevistas são na realidade homenagens que ele faz a escritores com quem travou relação e enfrentavam dificuldades em seus países de origem, principalmente aqueles provenientes do leste europeu, como Milan Kundera e Ivan Klíma. Os ensaios a respeito de sua própria obra, todavia, tornam o livro mais apetecível para seus leitores habituais.  Para estes, servem como um anexo indispensável o seu ensaio de aniversário de 45 anos de O complexo de Portnoy (Companhia das Letras, 2004) e o discurso sugestivamente intitulado A impiedosa intimidade da ficção, pronunciado nas comemorações dos seus oitenta anos, em 2013, no Museu de Newark. Em síntese, é praticamente um livro de referência que fixa o legado a seu respeito com seus próprios textos.

Por falar em “legado”, inobstante as “ameaças” literárias que sua obra vem sofrendo recentemente em razão de alegada misoginia e sexismo, mais ou menos no mesmo revés de Bailey, críticos, estudiosos e até amigos de Roth passaram a considerar que seu espólio deveria manter-se disponível para que outros biógrafos nele se debruçassem e dessa forma pudessem até mesmo oferecer novas versões de sua biografia. Ao que parece, junto às caixas de correspondência e demais notas, Roth teria entregado a Bailey pelo menos dois manuscritos inéditos justamente contestando o livro de memórias de Claire Bloom, Leaving a Doll’s House: A Memoir (Little Brown and Co, 1998), atriz com quem viveu por cerca de 14 anos. O temor é que esses manuscritos e os documentos que pudessem consistir em novo apanhado ou publicação recebam a destinação que em vida Roth solicitou aos encarregados do seu espólio: a completa destruição. Por ora, trata-se de um drama sem desfecho.

Quando ainda vivia, Roth havia destinado à biblioteca pública de Newark uma coleção de 7.000 livros anotados, fotografias e documentos pessoais organizados por ele mesmo e algo em torno de 1/5 do seu patrimônio financeiro (cerca de 2 milhões de dólares) para que a biblioteca se reequipasse. Parece que ao aposentar-se com a publicação de Nêmesis, Roth dedicou-se a organizar a eternização de sua memória e seu legado, o que inclui o seu acerto com Bailey. Por meio de sua biblioteca pessoal é possível conhecer suas anotações em Dostoievsky, Colette e Machado de Assis, entre outros. Provavelmente é desse espólio que resultam os ensaios, discursos e apresentação da presente edição de Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013).

Daí pode-se presumir, portanto, que a curiosidade literária acerca de Roth será plenamente aplacada com a edição. É claro que isso se confirmaria apenas caso o interesse vulgar na pessoa, fofocas e informações desencontradas preenchessem menos o interesse das pessoas que propriamente sua obra e vida literária. Quanto a isso, é bem provável que Roth soubesse bem que seria algo impossível de deter, narrar ou conduzir com exclusividade. Certamente não a ponto de prever que sua memória fosse embargada por razões esdrúxulas, mas porque seus confrontos com o moralismo fatalmente se chocariam com a contemporânea tara social do cancelamento. Para estes leitores, Por que escrever?: Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013) é excelente oportunidade de conhecer de Roth mais no que ele é interessante, um autor fundamental de sua época histórica e com um talento incomum para narrar. Para os que não morrerão de um pasmo ao saber dos incidentes pessoais da vida do autor, espera-se que a biografia saia de uma vez por todas e suspenda-se a onda de exorcismos pelo menos no que se trata de um monstro literário como ele. Não é algo certo de se esperar, mas nunca custa muito o apelo ao bom senso e à razão.