E R R A T A – p/ Lucio Carvalho Artigos,Crítica O futuro que pode estar acontecendo

O futuro que pode estar acontecendo

mais recente livro de Yuval Noah Harari tem tudo para mais dia menos dia ser daqueles livros com os quais todos irão fatalmente tropeçar em qualquer grande livraria, ou se irá bater os olhos nele nas gôndolas dos aeroportos, ou ainda saltará na sua tela, qualquer que seja ela, em recomendações algorítmicas do seu fornecedor preferido. Talvez se devesse imaginar que isso tudo se tratasse do efeito de uma grande campanha de marketing viral, a começar pelo sugestivo título do livro, e completada pelas seguidas aparições midiáticas do autor, mas o mais certo talvez fosse considerar que Yuval novamente acertou a mão (que o digam seus editores) ao escrever um livro que as pessoas desejam ler e mais ainda porque suas “lições” agora dizem respeito ao tempo presente e seus fantasmas e fantasias mais atuais.

Um leitor inocente indagaria com o livro em mãos (ou em mente): mas isso é bom ou mau? Depende, seria talvez o mais apropriado a responder-se. Dependendo, sim. Dependendo, não. Ou, sendo o mais tolerante o possível, ambas as situações e respostas ao mesmo tempo.

Num país de alegado e documentado desinteresse pela leitura, não deixa de ser interessante que um livro de divulgação científica esteja disputando a atenção dos leitores contra uma variadíssima gama de subliteratura e isto por certo pesa a seu favor. Por outro lado, por sua própria presença na posição de mais vendido, seria possível alegar-se que então se trata de mais um livro fácil, um caça-níqueis, e isto talvez pesasse contra o autor e seu novo título.

Seja como for, ambas são apreciações superficiais e, desde que são colocados à venda, o que se espera é que livros vendam bem, portanto pelo menos aparentemente não há nem um crime em vista. Além do mais, essa é uma discussão que não chega ao limiar da relevância do livro em si mesmo, que é o que deveria importar, mas apenas demonstra a intensa desconfiança que tem cercado a publicação de qualquer livro de interesse histórico.

Algumas décadas de jornalismo histórico sobressaindo-se aos livros de e sobre história (e assim sucessivamente em outros campos do conhecimento) haveria de resultar num custo destes: neste caso, uma paranoia exorbitante. Para leitores que se acostumaram a identificar por livros de história apenas aqueles fartamente ilustrados e redigidos numa linguagem coloquial extremada, para não dizer banal, é importante dizer que o livro de Harari pode e deverá ter ainda muitas leituras críticas, inclusive desta espécie taxativa. Ocorre que na maioria das vezes estas são críticas irrelevantes, enquanto que seu livro é apenas acessível e um tanto quanto repetitivo no que confere aos seus argumentos e temáticas, mas isto parece não desapontar suas legiões de leitores mundo afora.

A noção de “irrelevância”, aliás, é das mais abordadas ao longo das lições por ele propostas e rapidamente se pode perceber que se encontra no fundo de muitas de suas preocupações com o tempo presente e também com o porvir. Ao passo em que fundamenta sua crítica ao tripé narrativo preponderante no séc. XX (o fascismo, o comunismo e o liberalismo), segundo ele em vias de ruir em prol de um mundo cada vez dominado e orquestrado por algoritmos, Harari localiza na expansão da tecnologia a nova grande ruptura no modo de viver de toda a humanidade a causar não apenas uma grande onda de desemprego em massa, mas a irrelevância de pessoas e até mesmo de nações inteiras diante da emergência tecnológica e seus grandes artífices, configurados principalmente graças ao desenvolvimento das inteligências artificiais. Com um assunto assombroso como esse e trabalhando sempre numa margem de que isso tudo venha a ocorrer em algumas décadas, Harari já ganhou a atenção de meio mundo a despeito de seus exageros, sejam deliberados ou não.

Não se trata, segundo suas lições, da obsolescência de ocupações e modos de viver que estariam por acontecer, mas do que está acontecendo já e cujos sinais se fazem sentir por toda a parte. Para Harari, o tempo presente é carregado por nuvens a impedir sua percepção com a clareza que anos de estudo em Oxford, na Universidade Hebraica de Jerusalém e longos períodos dedicados à meditação Vipassana permitiram-lhe entender de forma diferenciada. Talvez por essa razão é que a clareza, ou sua busca, de fato, parece ser o tom preferencial da maioria de suas argumentações. Apesar de localizar em torno do ano de 2050 o derradeiro colapso da humanidade, Harari o faz através de uma narrativa envolvente que em muitas vezes parece-se mais a um conto de fadas sombrio no qual o grande mal espreita o mundo globalizado enquanto os incautos creem poder dormir sob uma segurança apenas aparente.

Seria de esperar que suas 21 lições, ainda que tenham sido coligidas e baseadas nas ideias de muitos artigos, entrevistas e apresentações, trouxessem, para além de um diagnóstico circular, saídas viáveis para pelo menos boa parte da humanidade. Ao contrário daqueles que costumam postular na ascensão tecnológica a redenção da humanidade e a solução racionalizante para as mazelas tanto do corpo físico quanto social do humano, Harari prefere fazer as vezes do condutor da inevitável catástrofe, valendo-se para tanto de uma combinação de ceticismo e humanismo.

É em determinada altura de sua lição para a educação do século 21 que ele, no entanto, registra aquele que parece ser o grande conselho no que se refere ao futuro em todo o livro: “O mais importante de tudo será a habilidade para lidar com mudanças, aprender coisas novas e preservar seu equilíbrio mental em situações que não lhe são familiares. Para poder acompanhar o mundo de 2050 você vai precisar não só inventar novas ideias e produtos – acima de tudo, vai precisar reinventar a você mesmo várias e várias vezes.” Bem, para um país como o Brasil, tido como a “nação Rivotril” e que amarga o incômodo ranking de líder mundial em transtorno de ansiedade e quinto lugar em casos de depressão, segundo dados da OMS, trata-se de um conselho desanimador, ou então (preferivelmente) pueril.

Não que seja próprio do ser humano acalentar esperanças inúteis, mas esta parece ser mais uma revivificação da ideia marxista da decomposição da solidez, retomada tantas e tantas vezes sob diferentes formas durante o séc. XX a ponto de ainda conseguir parecer inédita ou, mais que isso, converter-se em aconselhamento de sobrevivência no mundo pós-capitalista. Este parece ser o ônus com o qual têm de arcar todos aqueles que se aventuram a predizer o futuro: esbarrar na muralha de antigos conceitos e da imprecisão histórica. Também parece um pouco a sina de que Philippe Ariès comenta no seu O tempo da história, da dificuldade em conceber-se claramente o contemporâneo, já que ele traz consigo o sentimento natural de uma época.

De qualquer forma, a partir da publicação da sua ambiciosa trilogia histórica, Harari tornou-se um debatedor importante ao longo da última década, ainda que muitas vezes reverbere como apenas mais uma dissonância sutil do tempo presente e seus insights fugazes enquanto o tempo engole a todos indiscriminadamente. Suas preocupações, recheadas de exemplos obtidos da história comparada, têm lastro e muitos interessados num mundo com excessiva pressa para ler e comparar e ávido por lições de quem advoga para si um misto de qualidades ímpares, tais como o ceticismo, a isenção e o distanciamento misantrópico. Condenando rapidamente aquele que talvez ainda seja o bem mais caro à civilização, o livre-arbítrio, a um papel subalterno no ordenamento dos fatos políticos e subjetivos, Harari realiza em suas lições muitos alertas importantes, mas corre o grande risco de ele mesmo acabar por denegar a espécie humana sua capacidade de discernir por conta própria.

Em sua narrativa, em lugar da consciência há cada vez mais a onisciente inteligência artificial do Google e de outras gigantes do Vale do Silício. No lugar da espontaneidade das relações humanas, a aventura seletiva das redes sociais e a desintegração das comunidades. No lugar do conhecimento e da diversidade humana, apenas algoritmos e Big Data. No lugar das idiossincrasias regionais e culturais, uma teia cultural reordenando o mundo em estruturas anômicas e situadas para além da compreensão humana.

Num mundo e tempos tão complexos como os narrados em sua não tão breve história da humanidade, é chegado o tempo em que Harari se tornou imprescindível para entendê-los e isso só pode ser muito bom para ele mesmo e seus leitores. Ocorre que mesmo em posse de livros sem dúvida bem elaborados e escritos, ainda assim é impossível garantir que o seu maior temor, o da irrelevância, não possa igualmente vir a atingi-lo numa outra narratologia superveniente, e isso não seria exatamente uma boa notícia. Bem mais prudente seria afirmar que, por enquanto, seus livros colaboram em acautelar-se com o presente e com o futuro. Trata-se de mais uma ambiguidade, mas dada a gravidade e a irrevogabilidade dos processos históricos, não cabe ser inocente nem com livros, nem muito menos com alertas apavorantes sobre o futuro.

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Artigo publicado na 9ª ed. da Revista Sepé.

Imagine-se um mundo sem redes sociais, sem internet, sem televisão, sem rádio ou jornais. Este é o mundo de Sombras na Correnteza, romance histórico que Cyro Martins publicou aos 71 anos de idade, em 1979, e que tem como pano de fundo a centenária Revolução de 1923.

Talvez o mais certo fosse dizer que se trata do olhar de Bilo Martins, o pai do próprio Cyro que é homenageado no romance e é também o personagem que testemunha o desenrolar daqueles dias remotos detrás do balcão de um comércio rural (um bolicho, na linguagem campeira). Mas o mais certo mesmo parece ser que o escritor tenha recombinado no livro memórias antigas com o olhar distanciado e a experiência acumulada em setenta anos de vida e muitas publicações nesse percurso. É o que ele próprio adverte no texto de orelha do livro, publicação da Movimento.

Na vida do campo, o bolicho não é apenas um local de comércio, é onde as pessoas se informam e propagam as novidades de boca em boca, de chasque em chasque. Na pasmaceira dos dias idênticos, o bolicho é o centro de comunicação que coloca em contato campo e cidade, o interior e o mundo.

Neste mundo quase um desvão do Brasil sem ainda uma imagem clara da modernização porvir e dominado pela figura autocrática do presidente Borges de Medeiros e a máquina político-militar do Partido Republicano Riograndense, uma eleição marcada pela suspeita (ou certeza) de fraude é o estopim para que o campo ainda muito militarizado em função da Revolução Federalista de 1893 volte a armar-se revivendo os momentos de violência que banharam de sangue o Rio Grande do Sul.

Em trinta anos, porém, o mundo havia mudado e muito. A marca maior da mudança tecnológica proveniente da I Guerra Mundial é o uso das metralhadoras em campo de batalha e agora, sob as ordens de Borges de Medeiros, a Brigada Militar as têm prontas para enfrentar as colunas enfileiradas nas coxilhas pelos apoiadores da candidatura de Joaquim Francisco de Assis Brasil, do Partidor Libertador. Sob o comando do Gen. Flores da Cunha, as forças governistas vão bater-se contra a organização caudilhesca de figuras quase mitológicas, como o Gen. Zeca Netto e o Cel. Honório Lemes. Mais tarde, a revolta ainda será conhecida como a em que o facão enfrentou a matraca, numa alusão à disparidade das forças em combate.

Além de flagrar as escaramuças do conflito e retratar as longas viagens empreendidas pelas colunas militares, o olhar de Cyro é sensível também às pequenas mudanças. O próprio comércio do seu Bilo é afetado pela intensa evasão populacional da região da Campanha em direção às cidades. Embora até a década de 50 a população rural quase equivalesse à urbana, esse movimento revolucionário de 1923 foi definitivo na configuração geográfica e política do estado do Rio Grande do Sul. A partir da chegada de Getúlio Vargas ao poder, o foco da economia passa à industrialização incipiente e o campo a gerar e exportar a pobreza rural para a cidade. Em 1923, o gaúcho a pé que Cyro caracterizara em seus romances anteriores mais conhecidos (Sem rumoPorteira fechada e Estrada Nova) estava em vias de migrar para a cidade.

Sombras na correnteza é um romance político de um autor já maduro e mesmo sua linguagem é mais direta e clara aos olhos urbanos que seus livros anteriores. Cyro, que havia denominado sua literatura por “localista” no lugar do regionalismo mais otimista, não hesita em mostrar as feridas sociais e psíquicas que tanto afetam as pessoas do campo quanto as da cidade. Ao lidar com um exército precário contra o Estado organizado e militarizado, se ele coloca em pé de igualdade militares de campo e de gabinete, é porque foi dos últimos escritores a viver aqueles tempos tais como eles aconteceram. Não é livre de um tom melancólico que ele narra a guerra frátria do épico de 1923. A sensibilidade do autor para com o povo do Rio Grande do Sul e sua história nunca abandonou o homem cosmopolita que ele foi.

Da literatura indianista à literatura indígenaDa literatura indianista à literatura indígena

Custou muito tempo para que a representação literária dos povos indígenas superasse aquela formalizada no “indianismo” brasileiro. Trata-se, a bem da verdade, de um processo ainda não concluído. Não é que Gonçalves Dias e José de Alencar tenham sido irrepreensíveis em seu trabalho, mas a marginalização das identidades indígenas brasileiras por mais de um século competiu na manutenção de uma visão estereotipada da realidade e condições de vida dos povos originários. Nesse julgamento, de certo modo fosse mais correto inocentar os autores românticos e denunciar, talvez, o interesse pitoresco da sociedade brasileira para com uma população que, a despeito das mais variadas investidas e violências, atravessou os séculos garantindo sua sobrevivência e autonomia cultural.

Desde a conclusão de O Guarani, provavelmente a obra máxima do indianismo brasileiro, quando a insólita união de um indígena com a filha dos colonizadores acontece de forma mirabolante, parece que certo caráter imobilista veio encerrando (ou encarcerando) a imaginação literária brasileira em respeito ao indígena enquanto motivo literário. Seja como tentativa de concretização artificial de certa visão iluminista, seja como pretensão de desvencilhar os povos indígenas de qualquer relação com a sociedade contemporânea e, nesse sentido, corroborar seu estatuto civil de “incapazes”, desde as últimas décadas do séc. XX esta composição passou paulatinamente a perder força e sentido. Foi com a insurgência de um novo movimento social indígena gestado desde a conformação da chamada Nova República, ou seja, do Brasil a partir da Constituição Federal de 1988, que os povos indígenas passaram a integrar e atuar politicamente de forma mais decisiva e, consequentemente, sua literatura ganhou novos contornos. O marco editorial deste período é o livro Antes o Mundo não Existia, de Umúsin Panlõn & Tolamãn Kenhíri, pertencentes ao povo Desâna, do Alto Rio Negro/AM, considerado o primeiro livro editado de autoria indígena.

A partir desse momento histórico do qual emergem os primeiros cursos interculturais de formação entre os povos indígenas e o letramento em português começa a possibilitar-se o registro das tradições orais, cerimoniais, narrativas tradicionais e todo o repertório identitário que vai constituindo aos poucos o que hoje se entende por “literatura indígena”. A consolidação do termo, todavia, ainda é muito debatida e a percepção de mais de 300 idiomas particulares dificulta a tarefa, sobretudo quando se torna possível apenas denominá-la aquele escrita em português, ou seja, aquela acessível ao povo não-índio.

Antes que se fizessem notar pela própria produção cultural, grande parte dos saberes tradicionais dos povos indígenas foi transcriada pelo etnografia e também pelos estudiosos do folclore brasileiro, como Silvio Romero e Câmara Cascudo, no passado, e, mais recentemente, com Claude Lévi-Strauss e Darcy Ribeiro. Na literatura brasileira, desde o período romântico passando-se pelo modernismo e chegando nas manifestações mais contemporâneas, a presença do indígena é quase toda ela meramente incidental. Com exceção de alguns poucos autores, como Mário de Andrade em Macunaíma e Guimarães Rosa com Meu tio o Iauaretê, sempre havia sido necessária a transfiguração do mundo indígena pelo mundo branco, como aponta Luzia Aparecida Oliva dos Santos, no trabalho de doutorado que resultou no livro O percurso da indianidade na literatura brasileira : matizes da figuração, editado pela UNESP no ano de 2009.

Para a pesquisadora, não é por acaso que o indígena compõe os fundamentos da incipiente literatura nacional do séc. XIX, mas por garantir-lhe uma noção de pureza original, fundacional, na qual não cabe a representação da realidade violenta da conquista, mas a cristalização do mito selvagem e da inauguração de uma unidade histórica pacífica idealizada a partir da ótica exclusiva do colonizador português e as escolhas pontuais de uma imagem projetada para ser justamente seminal:

“Ao lado do aparato histórico, marcado pela Independência política do país, o romantismo brasileiro relê a infância da literatura pelo viés histórico-nacionalista, apontando para o futuro da nação a partir de suas raízes, recuperadas nas lendas indígenas e em seus mitos, que deslocam para o eixo tríplice natureza, etnia e língua o espaço de construção do princípio regulador, capaz de instaurar a literatura nacional.” (SANTOS, 2009, p. 149)

Ainda que seja também um livro da tradição etnográfica, A queda do céu, de David Kopenawa e Bruce Albert é um trabalho sem precedentes para o campo antropológico brasileiro dos estudos indígenas e também do literário. Primeiramente escrito em francês e depois traduzido para o português, o livro é a transcriação de um convívio de muitas décadas entre o antropólogo francês e o xamã yanomani no qual é apanhada toda a cosmogonia indígena. Nas três seções e oito capítulos do livro são desveladas a iniciação do xamã, o contato destrutivo com o “povo da mercadoria”, isto é, o homem branco, e as impressões dele a respeito do destino do seu povo e de toda a civilização.

Dentro da emergência de um discurso político indígena, o trabalho de Kopenawa e Albert, além de situar a continuidade social e histórica dá relação povos indígenas e não-indígenas, instaura um campo de subversão simbólica. Nas palavras de Albert, o que se revela é “todo um processo político-cultural de adaptação criativa que gera as condições de possibilidade de um campo de negociação interétnica onde o discurso colonial possa ser contornado ou subvertido” (ALBERT, 1995, p. 4). Toda essa negociação passa, evidentemente, pela superação de qualquer noção teatral do modo de vida da população yanomani. Pelo contrário, o livro é um registro incomparável das formas de resistência subjetiva de uma comunidade tradicional que não apenas não percebe ganhos na relação com a civilização ocidental como ela é vendida, como ousa confrontá-la na sua dimensão destruidora, representada principalmente na persistência de um modelo econômico extrativista de relação com a floresta e os recursos naturais.

Ao passo em que se multiplicaram os estudos antropológicos e literários em torno da obra de Kopenawa e Albert, muitos outros autores indígenas ganharam nitidez no mercado editorial e estudos acadêmicos[1]. Além de Kopenawa, outros autores indígenas têm publicado seus livros com grande repercussão na crítica e no mercado editorial. Dentre muitos, pode-se citar Daniel Munduruku, Cristino Wapichana e Eliane Potiguara. No entanto, poucos como Ailton Krenak têm estado tão evidentes.

Líder político dos krenak de Minas Gerais, povo recém vitimado pelo desastre da barragem de Mariana, Ailton Krenak é jornalista e ambientalista de longa data. Ficou conhecido nacionalmente ao defender os direitos indígenas na Assembleia Constituinte de 1988, pintando o rosto com tinta jenipapo ao tempo em que discursava. Seu mais recente livro, editado pela Companhia das Letras e intitulado Ideias para adiar o fim do mundo, também busca fazer uma tentativa de alerta para toda a sociedade brasileira quanto ao risco ambiental. Em um vídeo gravado para o Itaú Cultural há poucos anos, Krenak realiza um questionamento vital a respeito da literatura indígena. Para Krenak, até aqui o interesse social em torno da temática indígena tem sido muito semelhante àquele indianista, do período romântico, idealizado e inocente. Para ele, é chegado o momento de desafiar a história e a contemporaneidade com dados mais realistas a respeito dos povos indígenas e descolonizar (sic) a cultura nacional.

Se a literatura é um campo simbólico privilegiado no qual traços culturais e valores são contrabalanceados, tendo em vista que a própria sobrevivência de tribos e nações inteiras está sempre em jogo, a presença indígena consegue ser no tempo atual das mais impactantes. Mais do que isso, segundo palavras do próprio Krenak, os indígenas não procuram lutar por sua terra, mas pela terra e pela sobrevivência de todos, de todas as dimensões da natureza. A despeito da história brutalizante de violência sobre violência, a literatura indígena é um sopro de vitalidade e esperança em meio a um tempo que se anuncia cada vez mais breve, antes que o céu desabe, como diz Kopenawa. Na ausência de um consenso sobre o bem estar da sociedade, é imprescindível conhecer a literatura indígena e não por uma questão de identidade, mas cada vez mais pela necessidade de aprendizado para a sobrevivência.

Referências

ALBERT, Bruce. O ouro canibal e a queda do céu: uma crítica xamânica da economia política da natureza. Série Antropologia, 174. Brasília: UNB, 1995. 33 p.

CASTRO, Eduardo Viveiros de Castro. Perspectivismo e multinaturalismo na América indígena. In: A inconstância da alma selvagem., p. 301-346.

KOPENAWA, David; ALBERT, Bruce. A queda do céu. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 729 p.

KRENAK, Ailton. Ecologia Política. Ethnoscientia, [S.l.], v. 3, n. 2, ago. 2018. ISSN 2448-1998. Disponível em: <http://www.ethnoscientia.com/index.php/revista/article/view/193>. Acesso em: 17 Jul. 2019. doi:http://dx.doi.org/10.22276/ethnoscientia.v3i2.193.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo : Companhia das Letras, 2019. 98 p.

Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção [recurso eletrônico] / Julie Dorrico; Leno Francisco Danner; Heloisa Helena Siqueira Correia; Fernando Danner (Orgs.) – Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2018. 424 p.

SANTOS, Luzia Aparecida Oliva dos. O percurso da indianidade na literatura brasileira: matizes da figuração. São Paulo : UNESP, 2009. 447 p.

[1] Uma boa ideia dessa produção literária e ao mesmo tempo militante pode ser obtida no livro Literatura indígena brasileira contemporânea: criação crítica e recepção, publicação da Editora Fi/Acesso aberto, de 2018.

Just another life to liveJust another life to live

Delicado é por agora um dos adjetivos preferidos pelas pessoas para descrever algo que as agrada. Normalmente se dedica o termo àquilo que nos parece brando, singelo, sutil.. O que é especial e notável pela beleza. Por outro lado, o termo também se aplica quando se quer dizer que o referente é difícil, frágil, requer cuidado. Quando a situação está delicada o que se quer dizer é que a situação é problemática. Um termo com muitos sentidos e que depende do que vem dele associado para se entender do que se trata.

Tenho lido por aqui a autobiografia de Vashti Bunyan e vou ficando cada vez mais impressionado pelo que leio e encantado com a simplicidade da pessoa e também da sua clareza de espírito.. Como pode o seu talento incrível ter sido tão menosprezado em sua época? Como pôde a crítica musical dos anos 60/70 ter sido tão implacável com uma menina de vinte e poucos anos a ponto de levá-la a concluir que a música não era para ela e que, portanto, o melhor seria desistir da carreira?

Foi o que aconteceu com Vashti. Lá pelas tantas, ela entendeu que seus sonhos e ambições eram despropósitos e exagerados e não iriam acontecer. E apesar da amargura terrível da desistência, foi o que ela fez e no inicio da década de 70 foi viver sua vida. Just another life to live, como diz o título da sua biografia.

Por diletantismo, tenho lido ao longo dos anos a respeito da vida de muitos cantores folk e roqueiros. Alguns têm livros em português, outros pego no Kindle. Comecei há tempos com a biografia de Bob Dylan, Johny Cash, Neil Young, Johni Mitchell, um livro da irmã de Janis em que ela destila um veneno impressionante. Os de Dylan e Neil Young me soaram tão artificiais que me desfiz deles. O de Johny Cash, por outro lado, guardo fora dos livros de música. Nunca curti muito o estilo vocal dele, mas o livro é realmente especial. Agora recomecei com Karen Dalton (outra vida duríssima), Nick Drake e Vashti. Nada disso tem em português.

A verdade é que o mundo artístico sempre teve esses fenômenos: artistas mirins que surgem como cometas e se desviam completamente, muitas desistências não reportadas ou feitas em silêncio e alguns poucos que têm esses resgates como teve a obra de Vashti graças a redescoberta por artistas muito mais jovens e ouvidos apurados, como o do pianista e compositor Max Richter, produtor de seus discos após o intervalo de 35 anos.

Essa redescoberta aconteceu com ela e também com outro fenômeno semelhante, Linda Perhacs, que, diante ao menosprezo geral, botou a viola no saco e foi viver sua vida de cirurgiã-dentista, voltando a gravar e a fazer shows quase septuagenária. Hoje é um clássico cultuado.

Se existe uma música que pode realmente ser chamada delicada por aí é a dela e se o seu nome não estiver na lista, desconfie. Se existem mesmo pessoas que nasceram fora de sua época, ela também é uma dessas pessoas. Nesse tempo em que a urgência de reconhecimento comanda a vida dos pretendentes ao estrelato, histórias como a de sua vida são interessantíssimas para redimensionar um pouco a gana, a pressa e o chamado à exposição da era das redes.